segunda-feira, 11 de julho de 2011

Rodolfo Stroeter sobre disco " O Sol de Oslo"

Rodolfo Stroeter
Voltando pro sertão, tecnologizando. Encontro múltiplo de músicos que nunca haviam tocado juntos, e sequer se conheciam. Espontaneidade, transculturalismo sertanejo. Essa história tem um fio diverso e tramado por uma série de sincronicidades que a vida propicia.

Gil gravava em São Paulo seu especial/CD "Unplugged" em janeiro de 1994. Eu já andava procurando o recontato, há muito estabelecido. Pois ele sempre foi alguém de quem eu sabia, que tinha força interna e conexão imediata. Acho mesmo que fui querendo ser músico por conta de ter descoberto – lá pelos meus onze ou doze anos de idade – aquele LP comprado na Sears por minha mãe. Era "Panis et Circencis". Fiquei fascinado pela capa e principalmente pelo penico que o Rogério Duprat segurava elegantemente. Parecia uma figura de Lewis Carrol no chá de Alice. Lembro que a roupa colorida do Gil me intrigou (será que ele realmente usa uma roupa dessas?). Daí que antes um pouco eu tinha visto e ouvido Domingo no Parque no Festival e fiquei impressionado com o jeito bonito e fácil e tão brasileiro de contar um drama (então o Brasil é assim?). Depois fiquei crescendo, ouvindo e participando de longe. E virei músico. E ainda logo depois eu, já tocando com o Pau Brasil, fui dividir palco com ele lá na Europa – nos festivais de Jazz de Grenoble e de Udine. Um olhando e ouvindo o outro e descobrindo música cada vez mais.

Então, quando fui lá no ensaio do "Unplugged", sabia por dentro que tinha alguma coisa por vir. Mas não sabi a o quê. Fomos lá eu, Marlui e Kiki – por conta do CD da Marlui que eu iria produzir ("Ihu – Todos os Sons"). Ficamos ali só nós três, ouvindo o ensaio, e foi muito forte voltar naquela hora pela música que eu havia passeado tanto. Depois do ensaio encontramo-nos e eu expliquei a idéia. Muito rapidamente tudo se acertou e logo depois Gil veio aqui pra Sampa e numa tarde gravamos sua participação no CD da Marlui. Havia muita harmonia por estarmos nos resdescobrindo, e daí no dia seguinte – na hora de levá-lo ao aeroporto – Gil me disse que havia gostado muito da maneira como a música havia acontecido e que queria mais. Foi assim que a idéia de O Sol de Oslo surgiu.

Fiquei pensando como seria inédito e exato um encontro de músicos criativos que pudessem dialogar livremente entre si, a partir de umas poucas idéias preconcebidas em torno da força criativa dele. Gil veio a São Paulo para que fizéssemos uma espécie de brainstormmusical duas v ezes. Lembro que lá na Pau Brasil a atmosfera da criação era muito livre. Mário de Andrade, Jackson do Pandeiro, Moacir Santos, tudo ia fazendo sentido. Era o Brasil que eu tinha ouvido no Domingo do Parque da minha infância voltando. Quase como se fosse a exposição de um segredo guardado dentro de mim. Que mesmo pra mim não havia-se revelado. Numa dessas vindas, já numa hora adiantada da noite, eu e ele no carro na 9 de Julho e a excitação da criação crescendo. Daí que da conversa Gil lembrou da frase proferida num discurso seu lá na Bahia : "O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe". Ficou no ar a idéia e o resto todo do CD. Não havia nada arranjado, certo. Havia a certeza do risco. O prazer do risco, antes de tudo.

Lá na Noruega fui chegando antes com Kiki e, logo depois, Toninho e Marlui, Gil e Flora, e Trilok – que veio da Alemanha. Bugge é de lá e nos esperava. A mesma incerteza reinante, o mesmo proposital encont ro acidental foi então ampliado. Já não éramos só nós (Gil, Marlui e eu) procurando o CD. Havia uma amplificação curiosa, pois o material que se ia selecionando numa sala de ensaio – onde ficamos trancafiados durante 5 ou 6 dias – era dividido com um indiano, um norueguês e um sideral sanfoneiro brasileiro.

No entanto, tudo cheirava a Brasil, tudo tinha um sabor inequívoco de sertão. Mas era só sair do ensaio e aquele frio escandinavo de novembro… Éramos sertanejos anônimos num outro planeta. Mas então por que gravar lá? (todo mundo me pergunta isso…). Porque sim. Porque, em primeiro lugar, é importante estar estrangeiro e anônimo para que possamos nos reconhecer melhor. Depois, porque lá tem um silêncio diferente. E depois, porque seria fundamental celebrar um encontro de música criativa tão forte no Rainbow Studio, com um engenheiro tão especial quanto Jan Eric Kongshaug.

A gravação chegando perto e eu vendo que a olhe ira do Gil ia aumentando. Flora me disse que ele quase não dormia. Ficava escrevendo e pensando nas noites, num quartinho acanhado que ele havia pedido para que pudesse escrever. Assim nasceram as letras de Xote e de Kaô, e também a versão de Rep, que ele já havia atinado lá em Sampa. Raras vezes na minha vida de músico e de produtor tive tanto prazer em criar e produzir um disco como em O Sol de Oslo. Para que um CD desse possa fluir, é absolutamente necessária a compreensão e a rapidez de todos os artistas envolvidos na criação. Precisa haver uma conexão permanente de sensibilidade e uma abertura total diante do inesperado musical que surge a cada momento. Precisa também haver uma ordem permanente no caos de cada um. Pois houve.



O material todo do CD foi gravado em cinco sessões de oito horas de duração cada. Além das faixas que estão no CD, deixamos ainda gravadas duas que não entraram: uma versão de Músico Simples, composição de Gil ded icada a Johnny Alf, e uma composição de Trilok, chamada Vatapá (posteriormente substituídas já em gravação em São Paulo por Onde o Xaxado Tá e Oslodum). Numa atmosfera muito concentrada, os takesiam fluindo. Quase sempre o primeiro take era o que tomávamos como o melhor. Assim foi em Tatá Engenho Novo, Xote, Kaô, Mana e A Santinha Lá da Serra. Gil estava excitado com a precisão nas execuções e a rapidez com que as idéias iam se concretizando (é impressionante a fluidez de Trilok ao longo de todo o CD, mas confiram a tabla e o solo vocal do indiano em Tatá Engenho Novo). E foi-se afinando cada vez mais com a música e incorporando sua personalidade e liderança com o que ia acontecendo. No final das sessões, Gil partia de volta e eu senti que havia uma emoção diferente entre a gente. Coisa de quem dividiu a intimidade, de quem se entregou sem medo diante do inesperado. Como se cada um de nós houvesse crescido a partir daquela experiência. Me senti seu irmão.

O depois foi lento. Pouco afeito às regras comuns do mercado, o CD enfrentou inúmeras dificuldades e esperas para que pudesse ser lançado. Pois gravado em 94, acabou somente vindo aos ouvidos de todos em 98. Não envelheceu, não virou um CD sem sentido. Tenho um orgulho profundo de poder ter propiciado a Gil e a mim mesmo um estreitamento no que julgo ser a maior capacidade que ele possui: exercer a música com a sensibilidade e a espontaneidade acima de qualquer suspeita da qual ele é dono. Alarguei muito a minha visão a partir da criação ali contida. E posso dizer também com muito orgulho que o CD virou uma referência entre músicos e aficcionados. Não é pouca coisa não. Vale uma vida inteira de pensamento e de música, de amor incontido pelo Brasil e pela forma sobrenatural que nós, brasileiros, temos de viver e de nos conservarmos alertas na misturança da geléia geral.

Junho, 2002

"Encarte da "Caixa Palco"

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