Ituaçu - A história do vaqueiro que saiu ileso após cair de uma altura de 30 metros deu início a uma das maiores romarias da Bahia na Gruta da Mangabeira, povoado de Ituaçu, município localizado a 524 km de Salvador, no sudoeste do Estado. A romaria costuma reunir, anualmente, mais de 60 mil pessoas. A Gruta da Mangabeira fica a 3 km da sede do município.
Paralela à religiosidade das centenas de fiéis que chegam até de outras partes do País para louvar o Sagrado Coração de Jesus, padroeiro local, está a beleza ímpar da gruta. O local foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1962.
Dentre os vários devotos, as lavradoras Isalina Rosa de Souza, 62 anos e Valdi Francisca de Jesus, 65 anos , se destacam pelas mãos postas e semblante de profunda reflexão. Já os amigos Fabiano Barbosa Santos, 35 anos e Wilson Silva Cruz, 32 anos, percorrem os 165 km que separam Vitória da Conquista de Ituaçu há seis anos, pedalando bicicletas. Nenhuma promessa em comum foi feita, mas de acordo com eles, o esforço é pelo prazer da aventura e o de rever velhos conhecidos que moram na cidade.
Beleza - A Gruta da Mangabeira encanta com a beleza de suas mais de 70 formações naturais em formas de objetos, figuras sacras, animais e passagens bíblicas. Foi esse conjunto que levou uma família a sair de Brasília para conhecer o lugar e levar uma de seus membros a pagar uma promessa.“Vim aqui agradecer a Deus e ao Bom Jesus por uma graça alcançada em nome do meu filho”, contou a dona-de-casa, Vanda Ferreira Ribeiro, 61 anos. “Pretendo voltar mais vezes aqui”, disse.
Mas é preciso muita determinação para descer os 99 degraus em cimento, chegar ao salão principal, seguir em frente e vencer os 3.230 metros de extensão da gruta. ‘“A maioria chega até os 1.780 primeiros metros, onde a iluminação artificial acaba. Nos 850 metros iniciais, fica uma formação que se assemelha a um coração, considerado sagrado pelos visitantes”, conta o guia Antônio Carlos Novais, 40 anos, que está há 19 anos em atividade no local.
(Luiz Gonzaga, João Gilberto e Beatles - páginas 20-25)
(Augusto de Campos) Que fatos você considera essenciais para a sua própria evolução musical?
O primeiro fenômeno musical que deixou um lastro muito grande em mim foi Luiz Gonzaga. Em grande parte pela intimidade que a música de Luiz Gonzaga teve comigo. Eu fui criado no interior do sertão da Bahia, naquele tipo de cultura e de ambiente que forneceu todo o material para o trabalho dele em relação à música nordestina. Uma outra coisa bacana do Luiz Gonzaga - e a consciência disso veio depois, quando eu já especulava em torno dos problemas da MPB - foi o reconhecimento de que Luiz Gonzaga foi também, possivelmente, a primeira grande coisa significativa do ponto de vista da cultura de massa no Brasil. Talvez o primeiro grande artista ligado à cultura de massa, tendo a sua música e a sua atuação vinculada a um trabalho de propaganda, de promoção. Nos idos de 1951-52, ele fez um contrato fabuloso de alto nível promocional, com o Colírio Moura Brasil, que organizou excursões de Luiz Gonzaga por todo o Brasil.
(...) Quanto à idéia de uma música moderna popular brasileira, ela tem mais ou menos o mesmo sentido. É a idéia da participação fecunda da cultura musical internacional na música popular brasileira. De se colocar a MPB numa proposta de discussão no nível da música e não no nível de uma coisa brasileira com aquela característica de ingenuidade nazista, de querer aquela coisa pura, brasileira num sentido mais folclórico, fechado, uma coisa que só existisse para a sensibilidade brasileira. E, partindo dessas duas premissas, eu acho que agora, de uns seis meses pra cá, com esses novos resultados conseguidos principalmente pelo Caetano, essa linha evolutiva de João e a consecução dessa música popular moderna entraram em processo.
(Augusto de Campos) E você sabe que fim levou o próprio Luiz Gonzaga (Obs.: Luiz Gonzaga faleceu em 1989, a entrevista deve ter sido em data anterior)?
Luiz Gonzaga, hoje, mora no Rio de Janeiro, na Ilha do Governador, tranquilo, aposentado, com uma consciência espetacular a respeito de todas as coisas que foram significativas na música brasileira. Estive com ele no Natal do ano passado, por acaso. Ele, inclusive, comentou a propósito dessa coisa nova. Como ele entendia o significado da Bossa Nova, da cultura urbana, do universitarismo, da busca de maior aprimoramento cultural por parte dos novos compositores. Falando de “Procissão”, ele dizia: “Puxa, Gil, como eu gostaria de ter feito essa música. Agora , você sabe, nego, uma coisa, eu não tive nem o curso primário. Vocé é um cara formado, você pode dizer assim as coisas. Eu queria dizer essas coisas mas não sabia, eu não tinha estudo, eu não sabia jogar com as idéias. E tinha uma outra coisa. Vocês hoje reclamam, vocês falam da miséria que existe no Nordeste, da falta de condições humanas. Eu não podia, eu falava veladamente, eu era muito ligado à igreja no Nordeste. Eu tinha compromissos com os coronéis, com os donos de fazenda, que patrocinavam as minhas apresentações. Eles eram o meu sustento. Eu não podia falar muito mal deles”. É assim o Luiz Gonzaga, que foi o Rei do Baião. Ele é tão emocionante como o Caymmi e João Gilberto. O que eu sinto quando estou diante deles é a mesma coisa: o reconhecimento, naquela figura humana, de um trabalho imenso, de uma dádiva fabulosa para o desenvolvimento da cultura musical brasileira.
(Augusto de Campos) E depois de Luiz Gonzaga?
Depois de Luiz Gonzaga foi o João Gilberto. E o João por todas essas coisas que nós já discutimos. E, posteriormente, como dado recentíssimo, os Beatles e toda a música pop internacional. Isso principalmente pelo exercício de liberdade nova que eles propuseram à música popular do mundo inteiro, o que é uma coisa flagrante, e pelo sentido de descompromisso que eles impuseram com respeito ao que já tinha sido feito antes, mesmo com a música clássica, erudita. Os Beatles quase que puseram em liquidação todos os valores sedimentados da cultura musical internacional anterior. Eles procuraram colocar tudo no mesmo nível - o primitivismo dos ritmos latino-americanos ou africanos em relação ao grande desenvolvimento musical de umBeethoven, por exemplo. O valor reconhecidamente desenvolvido na Música Renascentista em relação, por exemplo, ao folclore escocês. Eles pegam essas coisas todas e colocam numa bandeja só, num único plano de discussão. Esses três - Luiz Gonzaga, João Gilberto e os Beatles - foram os marcos d eminah formação musical, num sentido profundo.
Você é uma pessoa sempre voltada pra síntese, né, Gil?
Sou muito... eu sou muito preso à idéia de unidade. A idéia de unidade, pra mim, é uma coisa do universo. O universo pra mim é uno, é integral. A idéia de caos é uma coisa que eu entendo, que povoa meus sentidos... a minha razão é o meu discernimento, mas a idéia de unidade é o sintoma básico da minha alma, entende? Mesmo, isso talvez por formação religiosa, tá entendendo? Pelos valores, digamos, morais e... religiosos e tudo, que forjaram a minha personalidade. (...)
Eu sou muito pequeno, é isso que eu acho. Eu sou muito pequeno quando me coloco em termos de universo. Então (...) a unidade é a única maneira do encontro, é a única coisa possível mesmo.
(...) É que eu resolvi virar uma antena ou um pára-raio. E deixar bater tudo quanto é força da natureza que puder bater - homens, pensamentos, palavras, fatos visões, imagens, tudo, tudo, tudo, sensações...
Eu já não consigo me resguardar, já não consigo... economizar o meu espírito e a minha alma pra um investimento localizado em termos de “eu vou me poupar” porque eu agora vou ser um escritor, eu vou me poupar porque eu vou ser um homem religioso, vou me poupar porque agora vou ser um músico.
A unidade pra mim é vista não no sentido do número um, mas do sentido do número infinito. O sinal infinito, da soma das unidades, é isso mesmo.
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(leituras de Gil - páginas 178-180)
Se você tivesse que apontar um livro que fez sua cabeça, qual você apontaria?
...A decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, os livros de Mircea Eliade... João Cabral de Mello Neto foi muito importante para minha maneira de poetar: Duas Asas, Morte e vida Severina, Educação pela pedra.... Também li coisas de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Os Sertões, de Euclides.
(...) João Cabral é marcante nessa coisa de poesia. Também Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, e Os quatro quartetos, de Eliot, me marcaram muito. Li mutia coisa de Drummond... Também gosto de publicações científicas, de filosofia, antropologia (...) De repente, posso estar lendo, por exemplo, sobre a teoria da Relatividade de Einstein.
(...) quando leio, nunca leio um só livro de cada vez. Em geral, leio dois, três livros... (...)
Agora, eu estou lendo um livro de História Universal, de Miircea Eliade, que faz paralelos entre civilizações antigas - fases da Grécia e fases das civilizações maia, tauteca, asteca - , comparações entre o Renascimento e fases antigas da ìndia..
Eu folheio um, dois capítulos; não sou um leitor sistemático não. Muitas coisas eu nem leio inteiras; O capital, de Marx,por exemplo, eu li pela metade...
O que você lê e o que escreve em suas letras de músicas mostram uma profunda vocação sincretista...
É, eu tenho uma dificuldade com a ortodoxia em qualquer sentido. O sentimento de aculturação é sempre mais forte do que o sentimento de preservação de culturas primitivas.
O meu empenho é muito mais no sentido de pegar, misturar, trazer a coisa para o plano do cosmopolitismo moderno.
trechos extraídos do livro do Julius, com várias entrevistas concedidas por Gil.
Voltando pro sertão, tecnologizando. Encontro múltiplo de músicos que nunca haviam tocado juntos, e sequer se conheciam. Espontaneidade, transculturalismo sertanejo. Essa história tem um fio diverso e tramado por uma série de sincronicidades que a vida propicia.
Gil gravava em São Paulo seu especial/CD "Unplugged" em janeiro de 1994. Eu já andava procurando o recontato, há muito estabelecido. Pois ele sempre foi alguém de quem eu sabia, que tinha força interna e conexão imediata. Acho mesmo que fui querendo ser músico por conta de ter descoberto – lá pelos meus onze ou doze anos de idade – aquele LP comprado na Sears por minha mãe. Era "Panis et Circencis". Fiquei fascinado pela capa e principalmente pelo penico que o Rogério Duprat segurava elegantemente. Parecia uma figura de Lewis Carrol no chá de Alice. Lembro que a roupa colorida do Gil me intrigou (será que ele realmente usa uma roupa dessas?). Daí que antes um pouco eu tinha visto e ouvido Domingo no Parque no Festival e fiquei impressionado com o jeito bonito e fácil e tão brasileiro de contar um drama (então o Brasil é assim?). Depois fiquei crescendo, ouvindo e participando de longe. E virei músico. E ainda logo depois eu, já tocando com o Pau Brasil, fui dividir palco com ele lá na Europa – nos festivais de Jazz de Grenoble e de Udine. Um olhando e ouvindo o outro e descobrindo música cada vez mais.
Então, quando fui lá no ensaio do "Unplugged", sabia por dentro que tinha alguma coisa por vir. Mas não sabi a o quê. Fomos lá eu, Marlui e Kiki – por conta do CD da Marlui que eu iria produzir ("Ihu – Todos os Sons"). Ficamos ali só nós três, ouvindo o ensaio, e foi muito forte voltar naquela hora pela música que eu havia passeado tanto. Depois do ensaio encontramo-nos e eu expliquei a idéia. Muito rapidamente tudo se acertou e logo depois Gil veio aqui pra Sampa e numa tarde gravamos sua participação no CD da Marlui. Havia muita harmonia por estarmos nos resdescobrindo, e daí no dia seguinte – na hora de levá-lo ao aeroporto – Gil me disse que havia gostado muito da maneira como a música havia acontecido e que queria mais. Foi assim que a idéia de O Sol de Oslo surgiu.
Fiquei pensando como seria inédito e exato um encontro de músicos criativos que pudessem dialogar livremente entre si, a partir de umas poucas idéias preconcebidas em torno da força criativa dele. Gil veio a São Paulo para que fizéssemos uma espécie de brainstormmusical duas v ezes. Lembro que lá na Pau Brasil a atmosfera da criação era muito livre. Mário de Andrade, Jackson do Pandeiro, Moacir Santos, tudo ia fazendo sentido. Era o Brasil que eu tinha ouvido no Domingo do Parque da minha infância voltando. Quase como se fosse a exposição de um segredo guardado dentro de mim. Que mesmo pra mim não havia-se revelado. Numa dessas vindas, já numa hora adiantada da noite, eu e ele no carro na 9 de Julho e a excitação da criação crescendo. Daí que da conversa Gil lembrou da frase proferida num discurso seu lá na Bahia : "O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe". Ficou no ar a idéia e o resto todo do CD. Não havia nada arranjado, certo. Havia a certeza do risco. O prazer do risco, antes de tudo.
Lá na Noruega fui chegando antes com Kiki e, logo depois, Toninho e Marlui, Gil e Flora, e Trilok – que veio da Alemanha. Bugge é de lá e nos esperava. A mesma incerteza reinante, o mesmo proposital encont ro acidental foi então ampliado. Já não éramos só nós (Gil, Marlui e eu) procurando o CD. Havia uma amplificação curiosa, pois o material que se ia selecionando numa sala de ensaio – onde ficamos trancafiados durante 5 ou 6 dias – era dividido com um indiano, um norueguês e um sideral sanfoneiro brasileiro.
No entanto, tudo cheirava a Brasil, tudo tinha um sabor inequívoco de sertão. Mas era só sair do ensaio e aquele frio escandinavo de novembro… Éramos sertanejos anônimos num outro planeta. Mas então por que gravar lá? (todo mundo me pergunta isso…). Porque sim. Porque, em primeiro lugar, é importante estar estrangeiro e anônimo para que possamos nos reconhecer melhor. Depois, porque lá tem um silêncio diferente. E depois, porque seria fundamental celebrar um encontro de música criativa tão forte no Rainbow Studio, com um engenheiro tão especial quanto Jan Eric Kongshaug.
A gravação chegando perto e eu vendo que a olhe ira do Gil ia aumentando. Flora me disse que ele quase não dormia. Ficava escrevendo e pensando nas noites, num quartinho acanhado que ele havia pedido para que pudesse escrever. Assim nasceram as letras de Xote e de Kaô, e também a versão de Rep, que ele já havia atinado lá em Sampa. Raras vezes na minha vida de músico e de produtor tive tanto prazer em criar e produzir um disco como em O Sol de Oslo. Para que um CD desse possa fluir, é absolutamente necessária a compreensão e a rapidez de todos os artistas envolvidos na criação. Precisa haver uma conexão permanente de sensibilidade e uma abertura total diante do inesperado musical que surge a cada momento. Precisa também haver uma ordem permanente no caos de cada um. Pois houve.
O material todo do CD foi gravado em cinco sessões de oito horas de duração cada. Além das faixas que estão no CD, deixamos ainda gravadas duas que não entraram: uma versão de Músico Simples, composição de Gil ded icada a Johnny Alf, e uma composição de Trilok, chamada Vatapá (posteriormente substituídas já em gravação em São Paulo por Onde o Xaxado Tá e Oslodum). Numa atmosfera muito concentrada, os takesiam fluindo. Quase sempre o primeiro take era o que tomávamos como o melhor. Assim foi em Tatá Engenho Novo, Xote, Kaô, Mana e A Santinha Lá da Serra. Gil estava excitado com a precisão nas execuções e a rapidez com que as idéias iam se concretizando (é impressionante a fluidez de Trilok ao longo de todo o CD, mas confiram a tabla e o solo vocal do indiano em Tatá Engenho Novo). E foi-se afinando cada vez mais com a música e incorporando sua personalidade e liderança com o que ia acontecendo. No final das sessões, Gil partia de volta e eu senti que havia uma emoção diferente entre a gente. Coisa de quem dividiu a intimidade, de quem se entregou sem medo diante do inesperado. Como se cada um de nós houvesse crescido a partir daquela experiência. Me senti seu irmão.
O depois foi lento. Pouco afeito às regras comuns do mercado, o CD enfrentou inúmeras dificuldades e esperas para que pudesse ser lançado. Pois gravado em 94, acabou somente vindo aos ouvidos de todos em 98. Não envelheceu, não virou um CD sem sentido. Tenho um orgulho profundo de poder ter propiciado a Gil e a mim mesmo um estreitamento no que julgo ser a maior capacidade que ele possui: exercer a música com a sensibilidade e a espontaneidade acima de qualquer suspeita da qual ele é dono. Alarguei muito a minha visão a partir da criação ali contida. E posso dizer também com muito orgulho que o CD virou uma referência entre músicos e aficcionados. Não é pouca coisa não. Vale uma vida inteira de pensamento e de música, de amor incontido pelo Brasil e pela forma sobrenatural que nós, brasileiros, temos de viver e de nos conservarmos alertas na misturança da geléia geral.