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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Renato Teixeira


RENATO TEIXEIRA POR ELE MESMO


Confesso que não é nada fácil ter que contar minha história. Viver é uma coisa tão normal, que não vejo diferença nenhuma entre a vida de um artista e de qualquer pessoa. Entretanto, num determinado momento de nossa carreira, o trabalho que realizamos começa a ganhar notoriedade e a curiosidade aumenta, então a gente conta alguma coisa...

Muitos estranham o fato da minha música ter origens caipiras e eu ser caiçara, nascido em Santos. Vejo isso como uma questão puramente familiar; são fatos circunstanciais, apenas. Passei a infância em Ubatuba e a adolescência no interior do Estado. Meu pai melhorou de emprego com essa mudança; eu e meu irmão já estávamos em idade escolar; Taubaté, naquele momento, era mais conveniente. Mudamos para lá. E foi muito bom! A música, em Ubatuba, já fazia parte do meu dia-a-dia.

Das atividades familiares a que mais me interessava era a música; todos tocavam e alguns eram, verdadeiramente, músicos. Eu poderia ter sido fogueteiro como meu avô Jango Teixeira, que tocava bombardine na banda. Poderia ter sido professor como meu avô paterno, Theodorico de Oliveira, que tem uma linda história intelectual com a poesia e a literatura.

Mas a música não me deixou espaços. Quis ser arquiteto por influência de um verso de Manuel Bandeira pregado na parede do atelier do Romeu Simi,; " Passou a arquitetura, ficou o verso." Vim para São Paulo no final dos anos sessenta, por indicação de Luiz Consorte que colocou uma fita com minhas músicas nas mãos de seu tio, Renato Consorte, que a enviou para os ouvidos do Walter Silva. Dei sorte! O Walter era um grande promotor de novos artistas e um homem muito conhecido nos meios de comunicação. As portas se abriram e, logo eu estava no Festival da Record de 67. Minha música era Dadá Maria e foi defendida pela Gal Costa (também em começo de carreira) e pelo Silvio César. Mas, no disco do festival, quem canta com Gal sou eu. Foi minha primeira gravação. Participei daquela fatia da história da MPB como um espectador privilegiado.

Sempre procurei conhecer a nossa história musical, ouvir todas as canções e todos os gêneros. Do samba à música caipira. Em tudo que ouvi sempre deparei com o talento e a vocação dos compositores brasileiros. A geração musical que frutificou da Bossa Nova, nos anos sessenta era chocante. Uma linda síntese de tudo que aconteceu de essencial na música brasileira até então. Foi uma festa. Ouvi a Banda do Chico em São José dos Campos, antes do festival e foi um impacto inesquecível. Ainda morava em Taubaté.

Ouvi Milton Nascimento antes do sucesso, e era deslumbrante. Todos que o conheceram nessa época, já tinham por ele uma admiração que só os grandes mitos podem desfrutar. Vimos e ouvimos Elis, todos os dias. Assisti bem de perto o surgimento do Tropicalismo. Na virada dos anos sessenta para os setenta a música silenciou. Fui fazer jingles publicitários para sobreviver. Acontece que gostei muito do assunto.

Enquanto atuei nessa área consegui realizar um bom trabalho, pois criei jingles que fizeram muito sucesso como aqueles do Ortopé, do Rodabaleiro e do Drops Kids Hortelã, que muita gente lembra até hoje. Nesse tempo já havia me identificado totalmente com a música caipira. Participei efetivamente da Coleção Música Popular Centro Oeste/ Sudeste do Marcos Pereira onde gravei algumas canções; entre elas: "Moreninha Se Eu Te Pedisse ". Com meus lucros publicitários e em parceria com Sérgio Mineiro, criei o Grupo Água, que nós dois bancávamos.

Tocávamos sem visar lucros. Foi com esse grupo que consegui assimilar o espírito da cultura caipira e projetá-la de uma forma contemporânea para todo o Brasil. Tocamos muitos anos juntos até que, um dia, a Elis gravou Romaria e convidou o grupo para acompanhá-la na gravação. Foi um grande sucesso que mudou minha carreira e criou um grande espaço para que a música do interior paulista invadisse o mercado. Hoje vivemos um processo seletivo e a tendência é que, cada vez mais, as pessoas entendam o que Elis quis dizer, quando gravou Romaria.

A parceria com Almir Sater é um grande momento na minha história. Juntos compomos alguns sucessos que são fundamentais para a sustentação das nossas carreiras. As mais conhecidas são Um Violeiro Toca e Tocando Em Frente. Outra parceria importante foi com a dupla Pena Branca e Xavantinho. Nosso encontro foi em Aparecida do Norte no início dos anos oitenta e, juntos gravamos o disco "Ao Vivo em Tatuí", que se transformou num marco no gênero. Aprendi muito com esses dois companheiros, verdadeiros representantes da cultura caipira.

A morte de Xavantinho foi prematura, sua partida impediu que pudéssemos usufruir mais da voz deste que, na minha opinião, foi um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos. Meu projeto de vida é dar continuidade ao meu sonho de divulgar e difundir cada vez mais o espírito do caipirismo valeparaíbano; não pela repetição das velhas formas e sim pelo potencial que esse Universo cultural oferece para que, como sempre, a música brasileira avance em direção ao futuro, coerente com a evolução, naturalmente moderna.
http://www.renatoteixeira.com.br/site/


Biografia

Cantor. Compositor. Passou a infância em Ubatuba, SP, indo aos 14 anos para Taubaté, onde viveu até os 24 anos. No início dos anos 1960 trabalhou como radialista na Rádio Difusora de Taubaté, onde através do discotecário Teodoro Israel, tomou conhecimento da música sertaneja. Mudou-se para São Paulo em 1967, onde no Bar Patachou, na Rua Augusta, dividiu mesas e debates com artistas de sua geração, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa e Geraldo Vandré.



Dados Artísticos

Em meados dos anos 1960 formou a "Banda Água" e abriu um estúdio de jingles publicitários. Em 1967 participou do III FMPB, na TV Record em São Paulo, com a composição "Dadá Maria", sendo defendidaa por Gal Costa e classificada entre as finalistas. A mesma composição seria posteriormente regravada por Clara Nunes e Sílvio César. Em 1968 participou do IV FMPB da TV Record, com a composição "Madrasta", interpretada por Roberto Carlos. Em 1972 conseguiu classificar sua composição "Marinheiro" para o VII FIC da TV Globo. No mesmo período participou da série  de discos dirigida por Marcus Pereira, "Música Popular Brasileira", no volume "Música do Centro-Oeste-Sudeste". Por essa época, começou a trabalhar com os velhos temas caipiras, com a "Banda Água", formada por Carlão de Souza, Sérgio Mineiro, Rodolfo Grani, Oswaldinho do Acordeom, Dudu Pontes, Marcinho Werneck, Papete, Luiz Roberto de Oliveira, Nelson Ayres  e Amilson Godoy. Começou gradativamente a migrar de gênero musical, procurando entretanto mesclas de diversas tendências e estilos musicais. Em 1977  sua composição "Romaria" foi gravada por Elis Regina, tornando-se rapidamente um estrondoso sucesso em todo o país, alterando até velhos preconceitos, ao afirmar convictamente no refrão: "Sou caipira". "Romaria" foi gravada, entre outros, por Tião Carreiro e Pardinho, Sérgio Reis, Pedro Bento e Zé da Estrada, Leandro e Leonardo, Inezita Barroso, Chitãozinho e Xororó, João Mineiro e Marciano, Fábio Júnior, Paçoca, pelo pianista americano Richard Clayderman e também pelo grupo de rock paulista Dr. Jack. A música entrou ainda para a trilha sonora da série da TV Globo "Carga pesada". O poeta Haroldo de Campos em entrevista à revista "Veja" fez elogios à letra de "Romaria", considerando-a uma das melhores da música brasileira nos anos 1970.
Em 1987, teve as composições "Ave marinha", parceria com Almir Sater e Kapenga e "Homem não chora", gravadas no CD da cantora Alzira Espíndola. Em 1989, a música "Sanfona", parceria com Cezar do Acordeom foi gravada no LP "Forró bom! - É do ABC!!!", da gravadora Musicolor/Continental" na interpretação de Cezar do Acordeom. Em 1990, a dupla Pena Branca e Xavantinho gravou a toada-balanço "60 léguas num dia" e "Seu" Chico Alves" no LP "Cantadô de mundo afora". Em 1985 participou do disco "Grandes cantores sertanejos", da Kuarup, ao lado de Xangai, Cida Moreira, Elomar, Sivuca e Geraldo Azevedo, entre outros. Em 1992 lançou pela gravadora Kuarup o CD "Renato Teixeira e Pena Branca e Xavantinho". No mesmo ano recebeu o Prêmio Sharp. Em 1997 participou do disco "Cantorias e cantadores", também pela Kuarup. Entre seus grandes sucessos estão "Sina de violeiro", regravada em 1996 por Sérgio Reis, e "Tocando em frente", parceria com Almir Sater, e presenças constantes em seus shows. Realiza uma média de dez shows por mês, principalmente na região do Vale do Paraíba, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso. Ainda em 1997 realizou o show "30 anos de carreira" no Canecão no Rio de Janeiro. Um de seus principais parceiros é Almir Sater, com quem compôs, entre outras, "Boiada", "Missões naturais", "Terra dos sonhos" e "Trem de lata". Em 1998 lançou pela Kuarup o CD "30 anos de romaria", com uma retrospectiva de sua carreira. Em 1999 gravou ao vivo com Xangai o CD "Aguaterra", em show realizado na sala Adoniran Barbosa em São Paulo, contando com as participações especiais de Natan Marques e Cassio Poleto. Na ocasião interpretou de sua autoria "Olhos profundos", "Guardiões da floresta" e "João Alegre". Em 2000 lançou com o multicordas Natan Soares o CD "Alvorada brasileira", no qual interpreta antigos sucessos como "Rural" e "Invernada", e novas músicas como a country "Transformação". O disco contou ainda com a participação de Oswaldinho do Acordeom, na faixa "Jaci" e do violinista Cássio Poleto na faixa "Tutu com torresmo". Em 2002 teve a música "Pequenina" gravada por Xangai no CD "Brasileirança". Ainda no mesmo ano, exibiu-se em espetáculo no Rio de Janeiro acompanhado por sua filha, nova cantora por ele lançada. Também no mesmo ano, apresentou-se no Teatro da UFF em Niterói no Rio de Janeiro juntamente com Pena Branca, Elomar, Teca Calazans e Xangai no show "Cantoria brasileira", comemorativo aos 25 anos da gravadora Kuarup. Ainda no mesmo ano, participou do CD "Cantoria brasileira" comemorativo dos 25 anos da gravadora Kuarup, juntamente com Pena Branca, Elomar, Teca Calazans e Xangai.
Em 2003, apresentou-se em show no Canecão juntamente com Pena Branca apresentando canções como "Romaria"; "Amanheceu" e "Tocando em frente", de sua autoria, além de "Cio da terra", de Milton Nascimento e Chico Buarque e "Canto do povo de um lugar", de Caetano Veloso. Nesse mesmo ano, fez participação especial no CD "Alma Lavada", lançado por Cláudio Lacerda, interpretando com o mesmo, "Olhos profundos", de, de sua autoria.  Em 2005, apresentou-se no programa "Viola, minha viola", comandado por Inezita Barroso, na TV Cultura de São Paulo. Também nesse ano, lançou CD com Rolando Boldrin em que confirma seu sotaque caipira. O disco revisita obras de compositores de todo o país e mereceu boa aceitação da crítica especializada.Traz destaques como, entre outras, "Ventania", de Geraldo Vandré e Hilton Acioly, que concorreu, também com o subtítulo "De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando", no Festival da Record de 1967, "Tempero das aves", do próprio Boldrin, "Vaca estrela e boi fubá", de Patativa do Assaré, "Acorda Maria Bonita", atribuída ao cangaceiro Volta Seca (Antonio dos Santos), do bando de Lampião, além de passar por obras de Lupicínio Rodrigues e até Chico Buarque, na composição tema para a peça "Morte e vida severina", sobre o poema de João Cabral de Melo Neto. O disco conta com participações como as de Almir Sater, que  toca viola (no clássico "Chico Mineiro", de Francisco Ribeiro e Tonico, da dupla com Tinoco), Paulo Sérgio Santos, no clarinete e Rodrigo Sater e Chico Teixeira nas cordas. Em 2007, sua composição "Romaria" foi escolhida para ser interpretada com variações, por Inezita Barroso, em dueto com a cantora lírica Nize de Castro Tank, juntamente com "Luar do sertão", de Catulo da Paixão Cearense, no CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, em duas sessões da série "Líricas e Populares". No mesmo ano, lançou CD/DVD gravado ao vivo no auditório Ibiapuera no qual fez uma revisão de sua carreira. O CD contou com as participações especiais de Pena Branca na faixa "Quando o amor se vai", Chitãozinho e Xororó na canção "Frete", a cantora Joana em "Recado", e o argentuino Leo Gieco na composição "La cigarra". Em novembro de 2008, apresentou-se no programa "Viola, minha viola" apresentado por Inezita Barroso, na TV Cultura, acompanhado do filho Chico Teixeira que já toca com ele há cinco anos. Na ocasião cantaram as músicas "Guardiões das florestas", de sua autoria, "Fogo no Paraná", de João do Vale, "Pai e filho", uma versão sua e do filho Chico, para a canção "Father's and son's", de Cat Stevens, e "Rapaz caipira", de sua autoria. Em junho e julho de 2009, participou do Circuito Syngenta de Viola Instrumental, ao lado de Levi Ramiro, Sidnei de Oliveira e Chico Moreira, tendo se apresentado no Teatro Municipal Paulínia e no Alpha Paulistano, ambos em São Paulo. No mesmo ano, participou da gravação do  DVD "Um Barzinho, Um Violão-Sertanejo", lançado pela Sony Music, cantando, ao lado da Cantora Ivete Sangalo, a música "Romaria", de sua autoria. O show, que foi gravado na Arena Country (SP), contou com artistas como Hugo & Tiago, Grupo Tradição, Fafá de Belém, João Bosco e Vinicius, Guilherme e Santiago, Cézar e Paulinho, entre outros. Ainda em 2009, teve participação especial na música "Contador de Causo", cantada Chico Teixeira, e lançada no CD da trilha sonora da novela "Paraíso", da Rede Globo de Televisão. Em setembro de  2010, gravou, com Sérgio Reis, o CD/DVD "Amizade sincera", pelo selo Som Livre. A intenção do  show, realizado no Teatro Bradesco, em São Paulo (SP), foi de realizar uma grande viagem pela música ruralista brasileira, com 20 faixas e 2 extras. O álbum contou com a participação especial de Paula Fernandes, na música "Tristeza do Jeca", e da dupla Victor & Léo, nas músicas "E Quando o Dia Nascer" e "Vida boa".  Em 2011, teve a sua música, "Tocando em frente" (c/ Almir Sater), gravada pela cantora e compositora Paula Fernandes, no DVD "Paula Fernandes ao vivo", lançado pela Universal Music. A faixa contou com a participação especial do cantor e compositor Leonardo. O álbum ultrapassou a marca de 700 mil cópias vendidas.



http://www.dicionariompb.com.br/renato-teixeira/



sexta-feira, 27 de maio de 2011

Dorival Caymmi



canção "o mar"

"...sou um autor do mar. (Sobre a canção "o mar") é uma canção que eu gosto e que tenho vontade que se lembrem de mim através dela."


Biografia
(30/4/1914 Salvador, BA
16/8/2008 Rio de Janeiro, RJ)

Filho de Durval Henrique Caymmi e Aurelina Cândida Caymmi, conhecida por Dona Sinhá. O pai era funcionário público e tocava violão, bandolim e piano. Sua mãe cantava muito bem. Teve três irmãos: Deraldo, Diná e Dinair. Aos seis anos de idade, começou a freqüentar a Escola de Belas Artes, no Colégio de Dona Adalgisa. Estudou depois no Colégio Batista e, em 1926, concluiu o curso primário no Colégio Olímpio Cruz. No ano seguinte, matriculou-se no curso ginasial no referido colégio, mas o abandonou no mesmo ano para trabalhar. Empregou-se no escritório do jornal "O Imparcial", da capital baiana, onde fazia diferentes serviços. Na mesma época, começou a fazer as primeiras pinturas, desenhando tabuletas para lojas comerciais. Em 1929, o jornal fechou e teve que se dedicar a outros serviços. Foi vendedor de cordões para embrulho e de bebidas nacionais. Perdeu o emprego quando, junto com alguns amigos, resolveu experimentar as amostras de bebidas. Nessa época, 1933, começou a compor marchinhas e toadas, como "No sertão", sua primeira composição. No ano seguinte, começou a tomar aulas de violão com seu pai e com seu tio Cici.

Em 1935, passou num concurso para escrivão da coletora estadual, cargo para o qual nunca foi nomeado. No mesmo ano, começou a cantar por acaso, quando foi visitar a Rádio Clube da Bahia, na companhia do amigo Zezinho. Perguntados por um funcionário da Rádio sobre o que faziam, Zezinho respondeu que cantavam. O funcionário tanto insistiu que Caymmi acabou cantando para surpresa de Zezinho que ficou encantado com sua voz ao microfone. Ainda em 1935, prestou serviço militar no Tiro de Guerra nº 284.

Em 1937, mudou-se para o Rio de Janeiro, viajando num Ita, um pequeno navio de passageiros, com a intenção de estudar jornalismo e trabalhar com desenho. Conseguiu, através de um parente, publicar alguns desenhos na revista "O Cruzeiro". Recebeu conselhos para seguir a carreira de cantor. Foi apresentado ao diretor da Rádio Tupi, Teófilo de Barros Filho, que se agradou de sua voz e o contratou por 30 mil réis. Em 1939, conheceu num programa de calouros na Rádio Nacional a sua futura esposa, a cantora Stella Maris, quando ela cantava "Último desejo", de Noel Rosa.

Em 1940, casou-se com Adelaide Tostes, nome verdadeiro da cantora Stella Maris. O casal teve três filhos: Dinair (Nana, 1941), Dorival (Dori, 1943) e Danilo Cândido (1948), que se tornariam também grandes nomes da música popular brasileira. Em 1943, perdeu sua mãe. Nesse mesmo ano, passou a frequentar o curso de desenho na Escola de Belas Artes no Rio de Janeiro. Em 1953, inaugurou a Praça Dorival Caymmi em Itapoã. Dois anos mais tarde, mudou-se com a família para São Paulo, lá vivendo por cerca de um ano. Caymmi tem seis netos, Stella Teresa, Denise Maria e João Gilberto (filhos de Nana), João Vítor (filho de Dori) e Juliana e Gabriel (filhos de Danilo).

Em 1968, ganhou do Governo da Bahia uma casa na Praia de Ondina, em reconhecimento a sua importância para a cultura brasileira. Em 1972, foi agraciado no Palácio do Itamaraty (Brasília) com a comenda da Ordem do Rio Branco, em Grau de Oficial. Foi também agraciado com a comenda da Ordem do Mérito da Bahia.

Em 1984, recebeu, em comemoração ao 70º aniversário, inúmeras homenagens, tais como: a edição de um CD duplo e de um álbum de desenhos patrocinado pela Funarte (Rio de Janeiro); a outorga da comenda da "Ordre des arts et des lettres de France"; a outorga da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho (Brasília) e a outorga do título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia (Salvador). Em 1985, inaugurou a Avenida Dorival Caymmi na capital baiana. Em 2001, esbanjando jovialidade em seus quase 90 anos, voltou às paradas de sucesso compondo para a televisão. Lutando contra um câncer renal desde 1999, faleceu de insuficiência renal e falência múltipla dos órgãos em sua casa no bairro carioca de Copacabana onde estava em internação domiciliar desde dezembro de 2007. Seu corpo foi velado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro com a presença de parentes e amigos, entre os quais inúmeros músicos. Sobre ele assim falou o presidente da República Luis Inácio Lula da Silva: "Ele é um dos fundadores da música popular brasileira, patriarca de uma linhagem de músicos de talento. Suas canções praieiras e seus sambas-canção são patrimônio da cultura nacional. Brilhou e inovou como compositor, músico e cantor. Sua música é uma completa tradução da Bahia."

Crítica

Minhas canções não chegam a 100”, atesta modestamente o mestre Dorival Caymmi. O que já valeu ao compositor a fama carinhosa e folclórica de preguiçoso deve ser, na verdade, entendido como uma virtude, um traço perfeccionista da sua personalidade musical. 
Em Caymmi, qualidade, e não quantidade, gerou uma obra extremamente singular, que pode ser considerada um dos pilares da construção da canção brasileira. Através da batida do seu violão — aparentemente primitiva, mas espontaneamente inspirada nas harmonias de compositores clássicos como Ravel, Debussy, Bach e Mussorgski — e do seu canto confidente, o homem praieiro, a herança africana, os personagens folclóricos baianos, as mulheres sestrosas e até um sentimento de carioquismo cruzaram os limites culturais e dionisíacos de um Brasil que fazia a transição entre o rural e o urbano, entre o regional e o universal.
Guardadas as diferenças culturais, uma intervenção histórico-musical semelhante à realizada por Luiz Gonzaga com o homem sertanejo do Nordeste. A arte do chefe do clã Caymmi é um caso exemplar de confluência entre o simples e o sofisticado a partir de elementos naturais como o vento, o mar, a morena e a terra.  
Uma confluência traduzida em sambas, sambas-canções, canções praieiras e toadas tão autorais (ele foi um dos primeiros compositores a gravar suas próprias canções, numa época em que o habitual era o autor entregar a música para um cantor), que o transformaram no melhor intérprete de si mesmo. Mas o conterrâneo Gilberto Gil talvez tenha sido quem melhor definiu a personalidade e a importância na música brasileira ao chamá-lo de “Buda nagô” na canção homônima.
Hagamenon Brito


Fonte: http://www.dicionariompb.com.br/dorival-caymmi/

sexta-feira, 13 de maio de 2011

João Pacífico




João Pacífico: Três Nascentes



Aqui João Pacífico declama poesia para o rio:
Um fiozinho d’agua desviou de um riacho
veio vindo serra abaixo e passou no meu pomar
encontrou uma pedra, ficou sua companheira
brincaram de cachoeira e aqui ficaram pra morar

E hoje da janela eu contei pra cachoeirinha
que ficou minha vizinha desde que a vi nascer
o seu murmúrio doce é um verdadeiro canto
é quem me serve de acalanto para eu adormecer
Biografia 
(extraído do site http://www.boamusicaricardinho.com/index_int_6_joaopacifico.html)
João Batista da Silva nasceu em Cordeirópolis-SP no dia 05/08/1909 e faleceu em Guararema-SP no dia 30/12/1998 e ganhou o apelido de João Pacífico dada a sua surpreendente serenidade, evitando sempre se meter em qualquer situação encrencada. Seus avós foram escravos; sua mãe era escrava alforriada e seu pai era maquinista de trem. 
Sua vida foi a clássica história do menino pobre do Interior, da Zona Rural, que lutou pela sobrevivência na Cidade Grande. De Cordeirópolis, mudou-se para Limeira-SP ainda pequeno e, com 10 anos foi morar em Campinas-SP, onde participou da Percussão na Orquestra Sinfônica local. Trabalhou também como copeiro na residência das irmãs do compositor erudito Antônio Carlos Gomes (autor da ópera "O Guarany", e também da canção "Quem Sabe"). Tal emprego e também o da Orquestra Sinfônica, com certeza o ajudaram a desenvolver e apurar seu bom ouvido musical, apesar de nunca ter aprendido música e de não saber tocar nenhum instrumento, exceto bateria que havia aprendido um pouco na adolescência.
E, aos 15 anos de idade, em Julho de 1924, o jovem João Batista da Silva descia do trem na Estação da Luz, na Paulicéia Desvairada com uma "cartinha de recomendação" que o apresentava como "honesto e calmo, perfeito para trabalhar de faz-tudo" numa fábrica de tecidos na Barra Funda. Fervia naquele momento na "Terra da Garôa" a Revolução Paulista (5 a 27/07/1924) e, nas ruas do centro de São Paulo, os soldados com fuzis e baionetas afugentavam as pessoas que passavam, já que o tiroteio "começava às 06:00 em ponto de manhã...". Foi nesse "cenário de guerra" o primeiro contato de João Pacífico com a Cidade Grande...
De temperamento discreto, manteve-se sempre "longe dos holofotes", mesmo quando esteve no auge do sucesso. Transcrevendo as palavras de Rosa Nepomuceno em seu livro "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio", "... as curvas tortas da estrada que acabaram por isolá-lo no final da vida, não o fizeram lastimar o destino. Não se queixava de nada, de dor alguma - física ou aquelas que mais machucam, as da alma. O filho único não o visitava, nem o enteado. O elo familiar eram os netos, Ana Carolina, Emílio e Daniel, que visitava pegando um ônibus e enfrentando galhardamente uma estradinha de terra e trechos das rodovias Bandeirantes e Castelo Branco, para chegar à Capital. (...) Suas maneiras educadas e, principalmente, o bom humor singular disfarçavam o fantasma da amargura que costuma fincar morada no coração dos que um dia conheceram a glória e o sucesso...".
Ainda segundo Rosa Nepomuceno, "Seu João" era também um mestre em elegância e bom humor. Lembrar que Rosa Nepomuceno visitou João Pacífico no sítio em que ele vivia em Guararema (de propriedade do amigo Frederico Mogentale - que ficou com a guarda de seu Acervo Musical e que está sendo por ele catalogado), pouco antes do falecimento do "Seu João" em 1998 e do lançamento do livro supra mencionado em 1999.
Lendário na Música Caipira Raiz, amigo de Mário de Andrade e de Guilherme de Almeida, sabe-se que foram mais de 256 músicas de sua autoria gravadas por intérpretes que vão desde Raul Torres e Florêncio até Chitãozinho e Xororó.
Apesar do enorme número de composições, muitas das quais ainda inéditas, tem-se notícia de apenas um disco por ele gravado, no qual ele cantou e declamou, tendo sido acompanhado pela viola de Tião do Carro e do conjunto "Os Macambiras" (viola, bandolim e violões): trata-se de "João Pacífico - Documento Sertanejo" lançado pela Berrante/WEA Nº. BR-79003 em Julho de 1980.
Não disponho do LP que é "fora de catálogo" e desconheço qualquer remasterização do mesmo em CD. No entanto, tive a felicidade de conhecer uma faixa desse disco, graças à Editora Abril - Abril Cultural que incluiu na quinta faixa do Lado-B da coleção "História da Música Popular Brasileira" - fascículo especial "Música Sertaneja" (verReferências Bibliográficas na página Para Saber Mais...) a toada "Três Nascentes" do próprio João Pacífico, tendo "Seu João" como autor-intérprete, momento no qual, já contando com seus quase 71 anos (1980), cantou "Três Nascentes" à vontade e com toda a verve, com sua característica voz gutural e extremamente grave.
Clique aqui, veja a letra e ouça esta gravação de "Três Nascentes" interpretada pelo próprio João Pacífico, disponível em vinil e fora de catálogo.
Também, de acordo com Rosa Nepomuceno no livro já mencionado "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio", esse "Disco-Filho-Único" de João Pacífico é realmente uma raridade fonográfica sem reedição (até Outubro de 1999 quando o livro foi escrito - e até hoje eu também desconheço qualquer reedição deste trabalho ou remasterização em CD).
Quero destacar também o CD JCB-0709-008 produzido por João Carlos Botezelli - Pelão, lançado pelo SESC-São Paulo que nos mostra alguns depoimentos de João Pacífico e algumas interpretações nas quais ele é acompanhado por Cristina (Voz), José Gomes (Rabeca), Tupy e Jorge (Violões) e que faz parte da série "A Música Brasileira Deste Século Por Seus Autores E Intérpretes". O conteúdo desse excelente Documento Musical é a gravação do programa Ensaio de 1991 da TV Cultura de São Paulo, sob a direção de Fernando Faro.
João Pacífico participou também da parte declamada no LP "Caipira: Raízes e Frutos" lançado em vinil pela gravadora Eldorado em 1980 e, para nossa grande alegria, remasterizado em CD em 1994. Sua participação se deu em "Estória de um Prego" (João Pacífico), "Couro de Boi" (Palmeira - Teddy Vieira), e "Toada de Mutirão" (Recolhido por Cornélio Pires). Participou também no mesmo disco da faixa "Besta Ruana" (Ado Benatti - Tonico).
Um fato curioso: Em 1933, tendo João Pacífico conquistado a simpatia e a amizade do Escritor Guilherme de Almeida (diga-se de passagem, Guilherme gostou bastante da toada "Mourão da Porteira" e disse que "...tal poema ele assinava em baixo..."), foi, munido de uma carta por ele escrita, à Rádio Record, procurando pelo cantor Paraguassu, o qual o recebeu "apressado" e "repassou o jovem João Pacífico" ao Raul Torres - o então "Embaixador da Embolada". Raul, simplesmente descartou a embolada "Seu João Nogueira" que João Pacífico levava escrita e disse que "não tinha tempo a perder" e que a jogasse no cesto do lixo... João Pacífico, com seu "merecido apelido", apesar de cordato, não desistiu e, num outro dia, conseguiu que Raul Torres lesse a letra da embolada e ouvisse o próprio João cantar e mesma!!
Imediatamente, Torres anunciou que era parceiro de João Pacífico a partir daquele instante e que gravaria na Odeon a embolada "Seu João Nogueira" (na qual homenageava o violonista da Rádio PRC-9 de Campinas - por sinal, tendo o mesmo nome artístico do falecido grande sambista carioca João Nogueira). Nascia naquele momento uma das parcerias mais produtivas da nossa Boa Música Brasileira!
Também se deve ao grande João Pacífico a criação do gênero "Toada Histórica" na qual era declamada uma poesia que antecedia a parte cantada. "Chico Mulato" (Raul Torres - João Pacífico) foi a composição inaugural desse gênero, a qual foi difícil conseguir a gravação na RCA, pois, dadas as limitações tecnológicas da época, a toada completa, com a parte declamada, simplesmente não caberia num lado do "bolachão 78 RPM"! Como Torres e Pacífico não abriam mão de manter a composição em sua integridade, "sem tirar nem por" (atitude louvável, por sinal!), o diretor da RCA-Victor Mr. Evans pediu aos técnicos da gravadora que "reduzissem a distância entre os sulcos do disco", para que coubesse "Chico Mulato" na íntegra: a parte declamada mais a parte cantada.
Após algumas experiências, Mr. Evans e os técnicos conseguiram e finalmente "Chico Mulato" ocupou o Lado B do disco Nº. 34.196 da RCA-Victor e, como a mesma foi bastante tocada nas emissoras de rádio, não demorou para que Mr. Evans pedisse para João Pacífico "uma outra daquelas cantar e falar..." E o sucesso seguinte foi outra Toada Histórica: "Cabocla Tereza" (Raul Torres - João Pacífico). E tal foi o sucesso que "Cabocla Tereza" virou filme em 1982 sob a direção de Sebastião Pereira com Zélia Martins no papel principal e participação especial de Jofre Soares. O próprio diretor também representou o "assassino da cabocla" na película.
Clique aqui e ouça uma gravação de "Cabocla Tereza", a segunda Toada Histórica de João Pacífico e Raul Torres, tendo na interpretação as vozes de João Pacífico e Cristina; na Rabeca, José Gomes e nos Violões, Tupy e Jorge. Esse excelente link musical pertence ao site MPB-NET e é uma gravação que faz parte do CD JCB-0709-008 "A Música Brasileira Deste Século Por Seus Autores E Intérpretes", já mencionado logo acima, produzido por Pelão e lançado pelo SESC-São Paulo.
Brás Baccarin diretor artístico da Chantecler/Continental de 1962 a 1977 de um certo modo "redescobriu" João Pacífico, através do lançamento do LP do Duo Glacial, em 1970, com 12 composições de sua autoria. Para nossa felicidade, esse disco foi remasterizado em CD pela Warner em Maio de 2000 na "Coleção Raízes da Música Sertaneja - Duo Glacial Em Homanagem A João Pacífico".
"Gostinho de Saudade" (João Pacífico - Piraci) particularmente me emocionou bastante com sua letra falando sobre um gostoso Café, a fazenda, o torrador, a moenda, o Interior de São Paulo e a saudade... 


Gostinho de Saudade
(Piraci - João Pacífico)

Me dá licença,
Estou chegando lá do mato,
Moro longe desse asfalto
Atrás da serra é o meu rincão;
Lá onde eu moro
Não existe luz na rua,
Moro onde nasce a lua
Que tem nome de sertão.

E não reparem
Na minha simplicidade,
A grande felicidade
Foi nascer neste lugar,
Eu sou herança
Deu um São Paulo ainda menino
Que tem o café mais fino
Do mais rico paladar.

Ainda conservo o mesmo rancho
E a moenda,
E aquela linda fazenda
Desde que ela se formou,
E o cafezal
Que acompanha esta grandeza,
Guardo bem esta riqueza
Que meu velho pai deixou.

Deixou pra mim
Aquela terra abençoada
Toda verdinha plantada,
Verdadeira raridade,
E um torrador
E seu antigo moinho.
Eis porque meu cafezinho
Tem gostinho de saudade...
A partir do disco do Duo Glacial, João Pacífico passou a ser chamado para entrevistas e participações em programas de TV, e passou a ser regravado e também reconhecido pela Imprensa.
Também não pode deixar de ser mencionado o fato que inspirou João Pacífico a compor a letra de um dos mais belos e inspirados Poemas que compõe o nosso Cancioneiro Caipira, que é "Pingo D' Água":
Em 1944, uma seca terrível castigava o Interior Paulista. Em Barretos-SP, João Pacífico (que para lá havia viajado para se apresentar numa exposição de gado) viu os fiéis rezando e fazendo promessa numa procissão, para que a chuva viesse. A "reza pela chuva" inspirou João Pacífico que escreveu a letra de "Pingo D' Água", que logo foi musicada pelo Raul, que imediatamente gravou juntamente com o parceiro Florêncio (João Batista Pinto de Barretos-SP) a belíssima melodia!
E, por sinal, qual é o Sertanejo que não se emociona com a letra de "Pingo D' Água"? O Homem do Campo que tanto depende da Natureza para o seu trabalho e também para a sua própria sobrevivência! Esta composição de João Pacífico e Raul Torres tocou fundo o coração do Caipira que viu nela a sua realidade e também "uma esperança"...
A letra fala sobre "a promessa de, ao chegar a chuva, levar o primeiro pingo d' água e molhar a flor da Santa que estava em frente ao Altar..." E a última estrofe encerra o poema de forma genial resumindo toda a emoção do Homem do Interior:
"...Em pouco tempo a roça ficou viçosa
A criação já pastava, floresceu meu cafezá
Fui na capela e levei três pingos d' água
Um foi o pingo da chuva... dois caiu do meu oiá!"
Este fato é descrito com riqueza de detalhes nas páginas 79 a 81 do livro de Paulo Freire "Eu Nasci Naquela Serra", leitura que eu recomendo ao Apreciador da Boa Música Caipira Raiz (verReferências Bibliográficas na página Para Saber Mais...).
E, coincidência ou não, choveu no Interior Paulista apenas dois dias depois do lançamento de "Pingo D' Água" e, em Barretos-SP João Pacífico e Raul Torres, quando por lá apareciam, eram até chamados de "Feiticeiros"...
Na foto abaixo, João Pacífico e Adauto Santos na casa de Célia e Celma:
Em 30/12/1998, no entanto, esquecido pela mídia e pelo mercado, João Pacífico deixou esse mundo com 89 anos, ocasião na qual morava no sítio do amigo Frederico Mogentale, conforme já foi mencionado. Com pouquíssima instrução escolar (na escola, só foi até o Primário), a qualidade da Construção Poética de sua obra recebeu os maiores elogios de Manuel Bandeira e Guilherme de Almeida (um grande amigo). SegundoRolando Boldrin, João Pacífico foi "o Noel Rosa da Música Caipira, um Mestre"!!! Rolando Boldrin eAdauto Santos foram das pouquíssimas pessoas conhecidas presentes no enterro de João Pacífico em Guararema-SP.
Antes de encerrar, porém, a página dedicada a João Pacífico, quero divulgar o seu poema "Fiozinho d' Água" que ele recitou num almoço na casa de amigos em Barretos-SP, dois dias antes de seu falecimento. Poema esse que João Pacífico escreveu em 1991 e que parece querer contar com bastante singeleza a história de um povo e da força de sua Cultura:

Um fiozinho d' água
Desviou de um riacho
Veio vindo serra abaixo
E passou no meu pomar,
Encontrou uma pedra
Ficou sua companheira
Brincaram de cachoeira
E aqui ficaram pra morar,
E hoje da janela
Eu contemplo a cachoeirinha
Que ficou minha vizinha
Desde que a vi nascer
Seu murmúrio doce
É um verdadeiro canto
É quem me serve de acalanto
Para eu adormecer.
Esse poema está na página 232 do Livro "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio" de Rosa Nepomuceno. Realmente, é fascinante a História batalhadora do nosso grande João Pacífico, desde aquela manhã de Julho de 1924 quando ele desembarcou na Estação da Luz na Paulicéia Desvairada. João Batista da Silva, o João Pacífico, nas palavras de Rosa Nepomuceno em seu Livro "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio", " ...viu o Brasil mudar de cara e a música tocada na "violinha de arame", lá nos cafundós das velhas roças de café, tornar-se um mar de estilos diferentes. (...) Conseguiu, durante tantos anos e, com tantas interferências, manter cristalinas as águas de sua música - um fio d'água correndo entre as pedras, na mata devastada, mas que ele ainda teve tempo de ver renascer com os "Novos Caipiras da Cidade"... ".
Valeu, João Pacífico!! Valeu, Rosa!! Seu Livro ("Música Caipira - Da Roça ao Rodeio") é excelente e, sem ele, meu conhecimento seria realmente muito pequeno... Parabéns, Rosa!!! Parabéns, João!!! 



As informações contidas no texto desta página são originárias principalmente do Livro "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio" de Rosa Nepomuceno, bem como do Livro "Eu Nasci Naquela Serra" de Paulo de Oliveira Freire, além dos Encartes dos CDs "Caipira Raízes e Frutos" e "Raízes da Música Sertaneja - Duo Glacial Em Homenagem A João Pacífico".

terça-feira, 19 de abril de 2011

Carneirinhos - Xangai, Helio Contreiras e Cecília Meireles



Vídeo onde é entrevistado por Chico Pinheiro, falando de suas origens e influências e canta um aboio na abertura.
    Chico Pinheiro: "Mas de onde é que vem essa inspiração, porque você teria tudo pra seguir ou a música tradicional do nordeste brasileiro ou os sucessos dos grandes cantores como Orlando Silva, essa coisa toda. Por que que você foi pra essa vereda aí?"
     Xangai: "Porque eu não posso me queixar de ser órfão cultura, porque eu sou, todo brasileiro, nós somos filhos de Dorival Caymmi, de Capiba, de Luis Gonzaga, de João do Vale, de Marinês, de Jacinto Silva, de Jackson do Pandeiro, de Adoniran Barnosa. Então minha referência são os mestres, os poetas como Manuel Bandeira, como Castro Alves, a história, o presente que Guimarães Rosa deixou pra nós. Então eu bebo nessa fonte, e eu canto a minha circunstância, a nossa realidade."



Carneirinhos

Canção de Xangai e Hélio Contreiras, baseada no Poema de Cecília Meireles, pertencente ao livro "Ou isto ou aquilo", publicado em 1964. Gravada no disco "Que qui tu tem, canário", de 1981.


Xangai - Eugênio Avelino
Nasceu em 20 de Maio de 1948, na zona rural do município de Itapebi, às margens do Rio Jundiá, afluente do Jequitinhonha, no extremo sul da Bahia.
Durante sua infância, a família mudou para Minas Gerais. Em Nanuque, o pai abre uma sorveteria, a Xangai, que lhe inpiraria o nome artístico.“Eu sempre fui um artista. Canto desde garoto”.

O chapéu que usa nos palcos da vida, não engana: como seu pai, ele é vaqueiro. “Eu sou da linha dos pastores, dos cuidadores de rebanhos de cabra, gado, sou vaqueiro também e adestrador de cavalos”. Viveu tempos na fazenda do seu primo, o compositor e cantor Elomar. E esse encontro foi decisivo na sua formação artística. É um dos melhores intérpretes das suas canções.
Em 1973 mudou-se para o Rio de Janeiro onde viveu por mais de dez anos. Começou a estudar na Faculdade de Economia, mas desistiu para se dedicar à música.
“O que eu canto é a presença de minha própria realidade. Eu não me sinto muito confortável em cantar músicas de outros povos longe daqui, principalmente dos países ricos, tão em moda, tão apregoados, cantados e decantados por muitos brasileiros, inclusive. Eu acho muito melhor cantar músicas de Cartola, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, João do Valle, Jackson do Pandeiro do que dos Estados Unidos ou da Inglaterra. (…) Acho que eles também não ficam cantando Paulinho da Viola”.
Xangai gravou seu primeiro disco, Acontecivento, em 1976, para a CBS (o único disco que gravou para uma grande editora), com canções como Asa branca, um clássico de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Forró de Surumbim, Marcha-rancho, etc.
A sua discografia, de mais de quarenta títulos, inclui Parceria Malunga (1981), em conjunto com Elomar, Arthur Moreira Lima e outros; Mutirão da vida (1984), com direcção musical de Jaques Morelenbaum; Cantoria 1 (1984), que regista ao vivo o espectáculo que com Elomar, Geraldo Azevedo e Vital Farias apresentou no Teatro Castro Alves, em Salvador; Cantoria 2 (1985), com o mesmo grupo do disco anterior; Xangai lua cheia-lua nova (1991); Aguaterra (1996); Cantoria de Festa (1997), com músicas festivas que fazem alusão às festas populares dedicadas a São Pedro, Santo António e São João nos estados nordestinos, que recebeu o Prémio Sharp de Melhor Disco do Ano; Um abraço para ti, pequenina (1998) só com músicas de compositores paraíbanos; Brasilerança (2002) com o Quinteto da Paraíba onde consta a canção ABC do preguiçoso (Ai d’eu sodade), um dos seus maiores êxitos; Cantoria brasileira (2002), no seguimento do espectáculo que apresentou no Teatro da UFF, em Niterói, comemorativo dos 25 anos da sua editora, a Kuarup; Nois é jeca mais é jóia com Juraildes da Cruz. Em 2006 foi lançado o seu primeiro DVD, Estampas Eucalol que recolhe paraalém de um espectáculo ao vivo no Rio de Janeiro, uma entrevista ilustrada com depoimentos e números musicais.É autor, desde há anos, do programa “Brasilerança”, que ele próprio apresenta todos os domingos na TVE-Bahia e na Rádio Educadora da Bahia.
Recebeu o prémio Chiquinho Gonzaga, o título de Cidadão Paulistano, conferido pela vereação de São Paulo
pelo que apresenta e acrescenta na cultura daquele estado brasileiro, entre numerosas outras distinções.
Um dos principais cantadores e violeiros do Brasil, com uma voz forte a agreste, que vai do grave ao agudo,
no seu repertório avultam as canções nordestinas, de raiz popular, como os xotes, baiões, forrós, cocos, repentes, mas também as canções românticas e óperas do nordeste. De uma personalidade cultural única, forte e bem definida, “não se rende aos interesses da mídia nem se vende às amarras propostas pela indústria fonográfica da actualidade”.
Para Xangai, a diferença entre ser um cantador e um cantor vai além de uma simples questão morfológica.
O cantador, tal como se define a si próprio, é o que exprime a sua arte de forma verdadeira, de dentro para fora, sem concessões às modas ou ao mainstream. “Uma música que não tem uma ‘sustância’, não tem conteúdo poético, nem coisa que ficará. É uma armação, modelo descartável”, diz.
"Eu só canto o que me invade. Eu sou exigente, sou um filtro. O que eu quero é mostrar, não importa como. Sou o porta-voz dessas pessoas que não estão tendo a oportunidade devida", disse o cantor baiano em entrevista telefônica à Folha.


Helio Contreiras
Jornalista e escritor, compositor e cantador, Hélio Contreiras, a par de sua atividade profissional, sempre esteve ligado à música de raiz. Suas composições já foram gravadas por mais de uma dezena de cantadores e intérpretes.
Augusto Jatobá, que produziu o LP "Esturro da Onça" há 15 anos, é quem melhor define o amigo: Hélio Contreiras é um desses maratonistas que, desde a década de 60, vêm andarilhando por esta vida estradeira, sem fazer concessões aos modismos enganadores, fiel que sempre foi ao seu povo e às suas raízes sertaneja….
O album foi gravado em 1991, com as participações especiais dos baianos Elomar, Val Macambira e do próprio Xangai. Além de Estampas Eucalol, o repertório inclui as conhecidas Pulo do Gato, Mutirão da Vida e Corisco e Dadá.
Baiano de Rio de Contas, Chapada da Diamantina, Contreiras herdou a musicalidade de seu pai, o velho Abílio, que tocava vários instrumentos de sopro e corda. Na família Contreiras de Almeida são inúmeros os músicos, destacando-se entre outros sua filha, a musicista Kátia Almeida, responsável pelos arranjos e direção do excelente Sonho de Criança; o exímio violonista e chorão Augusto Contreiras e o sobrinho Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro de Brasília, que tem disco lançado pela Kuarup (Choro Livre).
Já passado dos 70 anos, continua em plena atividade, escrevendo e compondo. Acaba de lançar o livro Conto um Conto e Aumento um Ponto e colocou o ponto final no romance Terra Bruta. Na área musical, está fazendo uma releitura de suas músicas, algumas compostas há mais de trinta anos. Perguntado sobre este milagre, costuma responder: a criação não se aposenta, quem fica velho é o tempo, não eu!


Cecília Meireles
Algumas informações sobre a poetisa Cecília Meireles, autora do poema utilizado por Xangai, cujo depoimento ao final dialoga com as questões levantadas pela Renata (relações urbano x natureza):
Cecília Meireles foi também estudiosa do folclore: "O Movimento Folclórico, como mostra Luís Rodolfo Vilhena (Vilhena. 1997), tinha como base central a Comissão Nacional do Folclore (CNFL), instituição para-estatal criada em 1947 por Renato Almeida, que ocupava então um alto cargo no Ministério das Relações Exteriores, como chefe do Serviço de Informações no Itamaraty. A UNESCO, criada em 1946 no contexto do pós-guerra, definiu que seus países membros deveriam constituir organizações nacionais de cooperação junto às respectivas delegações. Uma de suas atribuições seria, precisamente, o impulso ao movimento folclórico, visto como uma das formas de reconhecer e valorizar positivamente as diferenças culturais entre os povos, e podendo assim atuar como um instrumento importante para evitar que se repetissem os horrores da guerra, em grande parte vistos como fruto da intolerância, do racismo e do etnocentrismo. Atendendo a essa recomendação, o Brasil criou o Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, dirigido por Renato Almeida.
(...) Ainda que não se envolvesse profundamente com sua política institucional, realmente não foi pequena a participação de Cecília Meireles nos eventos e organizações do Movimento Folclórico. Cecília foi integrante da Comissão Nacional de Folclore desde sua instalação, em 1947, tendo feito diversos pronunciamentos e escrito artigos e estudos nesta área. " Cecília apresenta de maneira bastante explícita suas relações com o folclore no discurso realizado na III Semana de Folclore, em 1950: “Eu vim como uma pessoa que, cansada de buscar caminhos para que os homens se entendam em outros setores de atividades intelectuais, procura no folclore, talvez, um caminho mais ameno, talvez um caminho mais possível, procurando que os homens encontrem no folclore a solução para muitos de seus problemas, pela compreensão das suas origens, da sua identidade, daquilo que neles é transitório e também daquilo que neles é permanente.” (Apud. Almeida. 1964, p.7)