João Pacífico: Três Nascentes
Aqui João Pacífico declama poesia para o rio:
Um fiozinho d’agua desviou de um riacho
veio vindo serra abaixo e passou no meu pomar
encontrou uma pedra, ficou sua companheira
brincaram de cachoeira e aqui ficaram pra morar
E hoje da janela eu contei pra cachoeirinha
que ficou minha vizinha desde que a vi nascer
o seu murmúrio doce é um verdadeiro canto
é quem me serve de acalanto para eu adormecer
Biografia (extraído do site http://www.boamusicaricardinho.com/index_int_6_joaopacifico.html)
João Batista da Silva nasceu em Cordeirópolis-SP no dia 05/08/1909 e faleceu em Guararema-SP no dia 30/12/1998 e ganhou o apelido de João Pacífico dada a sua surpreendente serenidade, evitando sempre se meter em qualquer situação encrencada. Seus avós foram escravos; sua mãe era escrava alforriada e seu pai era maquinista de trem.
Sua vida foi a clássica história do menino pobre do Interior, da Zona Rural, que lutou pela sobrevivência na Cidade Grande. De Cordeirópolis, mudou-se para Limeira-SP ainda pequeno e, com 10 anos foi morar em Campinas-SP, onde participou da Percussão na Orquestra Sinfônica local. Trabalhou também como copeiro na residência das irmãs do compositor erudito Antônio Carlos Gomes (autor da ópera "O Guarany", e também da canção "Quem Sabe"). Tal emprego e também o da Orquestra Sinfônica, com certeza o ajudaram a desenvolver e apurar seu bom ouvido musical, apesar de nunca ter aprendido música e de não saber tocar nenhum instrumento, exceto bateria que havia aprendido um pouco na adolescência.
E, aos 15 anos de idade, em Julho de 1924, o jovem João Batista da Silva descia do trem na Estação da Luz, na Paulicéia Desvairada com uma "cartinha de recomendação" que o apresentava como "honesto e calmo, perfeito para trabalhar de faz-tudo" numa fábrica de tecidos na Barra Funda. Fervia naquele momento na "Terra da Garôa" a Revolução Paulista (5 a 27/07/1924) e, nas ruas do centro de São Paulo, os soldados com fuzis e baionetas afugentavam as pessoas que passavam, já que o tiroteio "começava às 06:00 em ponto de manhã...". Foi nesse "cenário de guerra" o primeiro contato de João Pacífico com a Cidade Grande...
De temperamento discreto, manteve-se sempre "longe dos holofotes", mesmo quando esteve no auge do sucesso. Transcrevendo as palavras de Rosa Nepomuceno em seu livro "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio", "... as curvas tortas da estrada que acabaram por isolá-lo no final da vida, não o fizeram lastimar o destino. Não se queixava de nada, de dor alguma - física ou aquelas que mais machucam, as da alma. O filho único não o visitava, nem o enteado. O elo familiar eram os netos, Ana Carolina, Emílio e Daniel, que visitava pegando um ônibus e enfrentando galhardamente uma estradinha de terra e trechos das rodovias Bandeirantes e Castelo Branco, para chegar à Capital. (...) Suas maneiras educadas e, principalmente, o bom humor singular disfarçavam o fantasma da amargura que costuma fincar morada no coração dos que um dia conheceram a glória e o sucesso...".
Lendário na Música Caipira Raiz, amigo de Mário de Andrade e de Guilherme de Almeida, sabe-se que foram mais de 256 músicas de sua autoria gravadas por intérpretes que vão desde Raul Torres e Florêncio até Chitãozinho e Xororó.
Não disponho do LP que é "fora de catálogo" e desconheço qualquer remasterização do mesmo em CD. No entanto, tive a felicidade de conhecer uma faixa desse disco, graças à Editora Abril - Abril Cultural que incluiu na quinta faixa do Lado-B da coleção "História da Música Popular Brasileira" - fascículo especial "Música Sertaneja" (verReferências Bibliográficas na página Para Saber Mais...) a toada "Três Nascentes" do próprio João Pacífico, tendo "Seu João" como autor-intérprete, momento no qual, já contando com seus quase 71 anos (1980), cantou "Três Nascentes" à vontade e com toda a verve, com sua característica voz gutural e extremamente grave.
Clique aqui, veja a letra e ouça esta gravação de "Três Nascentes" interpretada pelo próprio João Pacífico, disponível em vinil e fora de catálogo.
Também, de acordo com Rosa Nepomuceno no livro já mencionado "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio", esse "Disco-Filho-Único" de João Pacífico é realmente uma raridade fonográfica sem reedição (até Outubro de 1999 quando o livro foi escrito - e até hoje eu também desconheço qualquer reedição deste trabalho ou remasterização em CD).
Também se deve ao grande João Pacífico a criação do gênero "Toada Histórica" na qual era declamada uma poesia que antecedia a parte cantada. "Chico Mulato" (Raul Torres - João Pacífico) foi a composição inaugural desse gênero, a qual foi difícil conseguir a gravação na RCA, pois, dadas as limitações tecnológicas da época, a toada completa, com a parte declamada, simplesmente não caberia num lado do "bolachão 78 RPM"! Como Torres e Pacífico não abriam mão de manter a composição em sua integridade, "sem tirar nem por" (atitude louvável, por sinal!), o diretor da RCA-Victor Mr. Evans pediu aos técnicos da gravadora que "reduzissem a distância entre os sulcos do disco", para que coubesse "Chico Mulato" na íntegra: a parte declamada mais a parte cantada.
Após algumas experiências, Mr. Evans e os técnicos conseguiram e finalmente "Chico Mulato" ocupou o Lado B do disco Nº. 34.196 da RCA-Victor e, como a mesma foi bastante tocada nas emissoras de rádio, não demorou para que Mr. Evans pedisse para João Pacífico "uma outra daquelas cantar e falar..." E o sucesso seguinte foi outra Toada Histórica: "Cabocla Tereza" (Raul Torres - João Pacífico). E tal foi o sucesso que "Cabocla Tereza" virou filme em 1982 sob a direção de Sebastião Pereira com Zélia Martins no papel principal e participação especial de Jofre Soares. O próprio diretor também representou o "assassino da cabocla" na película.
Clique aqui e ouça uma gravação de "Cabocla Tereza", a segunda Toada Histórica de João Pacífico e Raul Torres, tendo na interpretação as vozes de João Pacífico e Cristina; na Rabeca, José Gomes e nos Violões, Tupy e Jorge. Esse excelente link musical pertence ao site MPB-NET e é uma gravação que faz parte do CD JCB-0709-008 "A Música Brasileira Deste Século Por Seus Autores E Intérpretes", já mencionado logo acima, produzido por Pelão e lançado pelo SESC-São Paulo.
"Gostinho de Saudade" (João Pacífico - Piraci) particularmente me emocionou bastante com sua letra falando sobre um gostoso Café, a fazenda, o torrador, a moenda, o Interior de São Paulo e a saudade...
(Piraci - João Pacífico)
Me dá licença,
Estou chegando lá do mato,
Moro longe desse asfalto
Atrás da serra é o meu rincão;
Lá onde eu moro
Não existe luz na rua,
Moro onde nasce a lua
Que tem nome de sertão.
E não reparem
Na minha simplicidade,
A grande felicidade
Foi nascer neste lugar,
Eu sou herança
Deu um São Paulo ainda menino
Que tem o café mais fino
Do mais rico paladar.
Ainda conservo o mesmo rancho
E a moenda,
E aquela linda fazenda
Desde que ela se formou,
E o cafezal
Que acompanha esta grandeza,
Guardo bem esta riqueza
Que meu velho pai deixou.
Deixou pra mim
Aquela terra abençoada
Toda verdinha plantada,
Verdadeira raridade,
E um torrador
E seu antigo moinho.
Eis porque meu cafezinho
Tem gostinho de saudade...
Também não pode deixar de ser mencionado o fato que inspirou João Pacífico a compor a letra de um dos mais belos e inspirados Poemas que compõe o nosso Cancioneiro Caipira, que é "Pingo D' Água":
Em 1944, uma seca terrível castigava o Interior Paulista. Em Barretos-SP, João Pacífico (que para lá havia viajado para se apresentar numa exposição de gado) viu os fiéis rezando e fazendo promessa numa procissão, para que a chuva viesse. A "reza pela chuva" inspirou João Pacífico que escreveu a letra de "Pingo D' Água", que logo foi musicada pelo Raul, que imediatamente gravou juntamente com o parceiro Florêncio (João Batista Pinto de Barretos-SP) a belíssima melodia!
E, por sinal, qual é o Sertanejo que não se emociona com a letra de "Pingo D' Água"? O Homem do Campo que tanto depende da Natureza para o seu trabalho e também para a sua própria sobrevivência! Esta composição de João Pacífico e Raul Torres tocou fundo o coração do Caipira que viu nela a sua realidade e também "uma esperança"...
A letra fala sobre "a promessa de, ao chegar a chuva, levar o primeiro pingo d' água e molhar a flor da Santa que estava em frente ao Altar..." E a última estrofe encerra o poema de forma genial resumindo toda a emoção do Homem do Interior:
A criação já pastava, floresceu meu cafezá
Fui na capela e levei três pingos d' água
Um foi o pingo da chuva... dois caiu do meu oiá!"
E, coincidência ou não, choveu no Interior Paulista apenas dois dias depois do lançamento de "Pingo D' Água" e, em Barretos-SP João Pacífico e Raul Torres, quando por lá apareciam, eram até chamados de "Feiticeiros"...
Na foto abaixo, João Pacífico e Adauto Santos na casa de Célia e Celma:
Antes de encerrar, porém, a página dedicada a João Pacífico, quero divulgar o seu poema "Fiozinho d' Água" que ele recitou num almoço na casa de amigos em Barretos-SP, dois dias antes de seu falecimento. Poema esse que João Pacífico escreveu em 1991 e que parece querer contar com bastante singeleza a história de um povo e da força de sua Cultura:
Desviou de um riacho
Veio vindo serra abaixo
E passou no meu pomar,
Encontrou uma pedra
Ficou sua companheira
Brincaram de cachoeira
E aqui ficaram pra morar,
E hoje da janela
Eu contemplo a cachoeirinha
Que ficou minha vizinha
Desde que a vi nascer
Seu murmúrio doce
É um verdadeiro canto
É quem me serve de acalanto
Para eu adormecer.
Valeu, João Pacífico!! Valeu, Rosa!! Seu Livro ("Música Caipira - Da Roça ao Rodeio") é excelente e, sem ele, meu conhecimento seria realmente muito pequeno... Parabéns, Rosa!!! Parabéns, João!!!
As informações contidas no texto desta página são originárias principalmente do Livro "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio" de Rosa Nepomuceno, bem como do Livro "Eu Nasci Naquela Serra" de Paulo de Oliveira Freire, além dos Encartes dos CDs "Caipira Raízes e Frutos" e "Raízes da Música Sertaneja - Duo Glacial Em Homenagem A João Pacífico".
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