sábado, 23 de julho de 2011

depoimentos de Gilberto Gil



(Luiz Gonzaga, João Gilberto e Beatles - páginas 20-25)

(Augusto de Campos) Que fatos você considera essenciais para a sua própria evolução musical?
O primeiro fenômeno musical que deixou um lastro muito grande em mim foi Luiz Gonzaga. Em grande parte pela intimidade que a música de Luiz Gonzaga teve comigo. Eu fui criado no interior do sertão da Bahia, naquele tipo de cultura e de ambiente que forneceu todo o material para o trabalho dele em relação à música nordestina. Uma outra coisa bacana do Luiz Gonzaga - e a consciência disso veio depois, quando eu já especulava em torno dos problemas da MPB - foi o reconhecimento de que Luiz Gonzaga foi também, possivelmente, a primeira grande coisa significativa do ponto de vista da cultura de massa no Brasil. Talvez o primeiro grande artista ligado à cultura de massa, tendo a sua música e a sua atuação vinculada a um trabalho de propaganda, de promoção. Nos idos de 1951-52, ele fez um contrato fabuloso de alto nível promocional, com o Colírio Moura Brasil, que organizou excursões de Luiz Gonzaga por todo o Brasil.

(...) Quanto à idéia de uma música moderna popular brasileira, ela tem mais ou menos o mesmo sentido. É a idéia da participação fecunda da cultura musical internacional na música popular brasileira. De se colocar a MPB numa proposta de discussão no nível da música e não no nível de uma coisa brasileira com aquela característica de ingenuidade nazista, de querer aquela coisa pura, brasileira num sentido mais folclórico, fechado, uma coisa que só existisse para a sensibilidade brasileira. E, partindo dessas duas premissas, eu acho que agora, de uns seis meses pra cá, com esses novos resultados conseguidos principalmente pelo Caetano, essa linha evolutiva de João e a consecução dessa música popular moderna entraram em processo.

(Augusto de Campos) E você sabe que fim levou o próprio Luiz Gonzaga (Obs.: Luiz Gonzaga faleceu em 1989, a entrevista deve ter sido em data anterior)?

Luiz Gonzaga, hoje, mora no Rio de Janeiro, na Ilha do Governador, tranquilo, aposentado, com uma consciência espetacular a respeito de todas as coisas que foram significativas na música brasileira. Estive com ele no Natal do ano passado, por acaso. Ele, inclusive, comentou a propósito dessa coisa nova. Como ele entendia o significado da Bossa Nova, da cultura urbana, do universitarismo, da busca de maior aprimoramento cultural por parte dos novos compositores. Falando de “Procissão”, ele dizia: “Puxa, Gil, como eu gostaria de ter feito essa música. Agora , você sabe, nego, uma coisa, eu não tive nem o curso primário. Vocé é um cara formado, você pode dizer assim as coisas. Eu queria dizer essas coisas mas não sabia, eu não tinha estudo, eu não sabia jogar com as idéias. E tinha uma outra coisa. Vocês hoje reclamam, vocês falam da miséria que existe no Nordeste, da falta de condições humanas. Eu não podia, eu falava veladamente, eu era muito ligado à igreja no Nordeste. Eu tinha compromissos com os coronéis, com os donos de fazenda, que patrocinavam as minhas apresentações. Eles eram o meu sustento. Eu não podia falar muito mal deles”. É assim o Luiz Gonzaga, que foi o Rei do Baião. Ele é tão emocionante como o Caymmi e João Gilberto. O que eu sinto quando estou diante deles é a mesma coisa: o reconhecimento, naquela figura humana, de um trabalho imenso, de uma dádiva fabulosa para o desenvolvimento da cultura musical brasileira.


(Augusto de Campos) E depois de Luiz Gonzaga?
Depois de Luiz Gonzaga foi o João Gilberto. E o João por todas essas coisas que nós já discutimos. E, posteriormente, como dado recentíssimo, os Beatles e toda a música pop internacional. Isso principalmente pelo exercício de liberdade nova que eles propuseram à música popular do mundo inteiro, o que é uma coisa flagrante, e pelo sentido de descompromisso que eles impuseram com respeito ao que já tinha sido feito antes, mesmo com a música clássica, erudita. Os Beatles quase que puseram em liquidação todos os valores sedimentados da cultura musical internacional anterior. Eles procuraram colocar tudo no mesmo nível - o primitivismo dos ritmos latino-americanos ou africanos em relação ao grande desenvolvimento musical de umBeethoven, por exemplo. O valor reconhecidamente desenvolvido na Música Renascentista em relação, por exemplo, ao folclore escocês. Eles pegam essas coisas todas e colocam numa bandeja só, num único plano de discussão. Esses três - Luiz Gonzaga, João Gilberto e os Beatles - foram os marcos d eminah formação musical, num sentido profundo.


_____________________________________________________

(A unidade é o Infinito - páginas 100-101)


Você é uma pessoa sempre voltada pra síntese, né, Gil?
Sou muito... eu sou muito preso à idéia de unidade. A idéia de unidade, pra mim, é uma coisa do universo. O universo pra mim é uno, é integral. A idéia de caos é uma coisa que eu entendo, que povoa meus sentidos... a minha razão é o meu discernimento, mas a idéia de unidade é o sintoma básico da minha alma, entende? Mesmo, isso talvez por formação religiosa, tá entendendo? Pelos valores, digamos, morais e... religiosos e tudo, que forjaram a minha personalidade. (...)
Eu sou muito pequeno, é isso que eu acho. Eu sou muito pequeno quando me coloco em termos de universo. Então (...) a unidade é a única maneira do encontro, é a única coisa possível mesmo.

(...) É que eu resolvi virar uma antena ou um pára-raio. E deixar bater tudo quanto é força da natureza que puder bater - homens, pensamentos, palavras, fatos visões, imagens, tudo, tudo, tudo, sensações...


Eu já não consigo me resguardar, já não consigo... economizar o meu espírito e a minha alma pra um investimento localizado em termos de “eu vou me poupar” porque eu agora vou ser um escritor, eu vou me poupar porque eu vou ser um homem religioso, vou me poupar porque agora vou ser um músico.

A unidade pra mim é vista não no sentido do número um, mas do sentido do número infinito. O sinal infinito, da soma das unidades, é isso mesmo.



__________________________________________
(leituras de Gil - páginas 178-180)


Se você tivesse que apontar um livro que fez sua cabeça, qual você apontaria?

...A decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, os livros de Mircea Eliade... João Cabral de Mello Neto foi muito importante para minha maneira de poetar: Duas Asas, Morte e vida Severina, Educação pela pedra.... Também li coisas de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Os Sertões, de Euclides.

(...) João Cabral é marcante nessa coisa de poesia. Também Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, e Os quatro quartetos, de Eliot, me marcaram muito. Li mutia coisa de Drummond... Também gosto de publicações científicas, de filosofia, antropologia (...) De repente, posso estar lendo, por exemplo, sobre a teoria da Relatividade de Einstein.
(...) quando leio, nunca leio um só livro de cada vez. Em geral, leio dois, três livros... (...)

Agora, eu estou lendo um livro de História Universal, de Miircea Eliade, que faz paralelos entre civilizações antigas - fases da Grécia e fases das civilizações maia, tauteca, asteca - , comparações entre o Renascimento e fases antigas da ìndia..

Eu folheio um, dois capítulos; não sou um leitor sistemático não. Muitas coisas eu nem leio inteiras; O capital, de Marx,por exemplo, eu li pela metade...


O que você lê e o que escreve em suas letras de músicas mostram uma profunda vocação sincretista...
É, eu tenho uma dificuldade com a ortodoxia em qualquer sentido. O sentimento de aculturação é sempre mais forte do que o sentimento de preservação de culturas primitivas.

O meu empenho é muito mais no sentido de pegar, misturar, trazer a coisa para o plano do cosmopolitismo moderno.



trechos extraídos do livro do Julius, com várias entrevistas concedidas por Gil.
Encontros Gilberto Gil
Sergio Cohn, org.
Azougue Editorial - 2008

Nenhum comentário:

Postar um comentário