Criado por Lula Calixto, o grupo Coco Raízes e Arcoverde mantém viva uma tradição de coco até então pouco conhecida fora de sua região. A variante deste ritmo nordestino praticada pelos arcoverdenses (cidade que fica no agreste, mas que é considerada a porta do Sertão pernambucano) tem muito do indígena. É chamada também de coco de trupé, porque os músicos, além dos instrumentos tradicionais de percussão, valem-se também de pesados tamancos de madeira, com os quais batem forte no chão. A energia do grupo fez com quem ele se tornasse bastante requisitado para apresentações no Recife – e daí para outros estados – em seguida para turnês internacionais. O grupo é formado por membros da família de Lula Calixto e amigos. O Coco Raízes de Arcoverde gravou dois discos, Raízes de Arcoverde, e Godê Pavão, além de participar de várias coletâneas, no Brasil e no Exterior.
Alguns estudiosos defendem a ideia de que o Coco surgiu a princípio nos engenhos interioranos e só a posteriori chega ao litoral. Outros acreditam que seu surgimento se dá na própria região do litoral. Entretanto há uma terceira hipótese, nela, acredita-se que o Coco já teria vindo do continente africano, através das tribos de origem Banto (habitantes da região hoje conhecida por Congo e Angola).
Não só a origem como também a diversidade rítmica do Coco são multifacetadas, dependendo da região o Coco sofre alterações rítmicas como também mudança no que diz respeito a nomenclatura e até mesmo nos instrumentos usados. Ou seja, no Coco há várias versões e inúmeras maneiras de executá-lo. A exemplo podemos citar as variações: Rítmicas – Coco de Ganzá, Coco de Zambê e Coco de Mungonguê. Métrica dos versos – Coco Agalopado, Coco de Sétima e Coco de Embolada. Dependendo do local também recebe vários nomes: Coco de Roda, Coco do Sertão, Coco de Praia, Catolé, Toré, De Umbigada, de Desafio, etc. Apesar das variações nos quesitos métrica, ritmo e espaço geográfico; A pisada (ritmo) não sofre consideráveis alterações ao ponto de não conseguirmos decifrar a música tocada, pois quando se vê uma roda de Coco é impossível não saber que ritmo tão peculiar é aquele.
Dentre as principais influências estão a africana e a indígena. Do lado africano temos o ritmo propriamente dito, os tambores e chocalhos tocados em 2/2 e/ou 2/4 e cantados na forma refrão-estrofe. Na influência indígena, temos a questão estética do grupo, ou seja, a maneira dos participantes posicionarem-se, que é em fileira ou em forma de roda. Alguns pesquisadores acreditam que o ritmo é pernambucano, outros acreditam ser paraibano e há ainda um terceiro grupo que acredita ser alagoano. Por ser um ritmo tipicamente brasileiro e consequentemente nordestino, cada um dos três Estados o querem para si, já que acima de tudo é um signo de afirmação de identidade regional.
Nas teorias lançadas para tentar explicar a origem do Coco, há exemplos e argumentos bem elaborados e sucintos. Um desses diz que o Coco é originário do quilombo dos Palmares. Os ex-escravos alojados no quilombo usavam o coco para auto-sustentação e o quebravam a fim não só de extrair sua água e polpa, como também trabalhar (esculpir ou moldar) utensílios domésticos, tais como colheres, conchas, pratos, ponta de lanças, esculturas, etc. Durante o trabalho de quebrar o fruto, cantarolavam e alguns até dançavam. Há uma teoria do interior que diz que o Coco surgiu a partir do momento em que trabalhadores se juntam em mutirões para bater o barro dos pisos das casas, pois, naquela época era comum entre a população mais carente, casas de piso de barro batido. De uma forma ou de outra, podemos concluir que o Coco surgiu do povo, ou seja, é uma dança popular. Com o tempo foi ganhando mais adeptos e seu período áureo se deu no começo dos anos 50 até o final dos 60, nessa época o Coco chegou a ser dançado em salões por pessoas de maior porte econômico. Após os anos 60 o Baião e o Samba ganharam maior notoriedade e o Coco consequentemente perdeu espaço no cenário popular nacional.
No que diz respeito a métrica do ritmo e sua execução. Geralmente o Coco é tirado (cantado) por um mestre ou mestra coquista. Ao puxar (começar) os versos, o (a) coqueiro (a) é respondido pelo coro (demais integrantes da roda de Coco). Os versos podem ser já conhecidos ou de improviso como no Coco de Embolada. Os instrumentos, independente da nomenclatura do Coco, são praticamente os mesmos: Triangulo, Ganzá, Surdo, Zambê, Zabumba, Caracaxá, Mongonguê, Cuíca, Alfaia, Pandeiro, e, o instrumento mais importante de todos, os Tamancos! São as sandálias de madeira e couro que dão autenticidade e legitimidade ao ritmo. Os tamancos dos (as) dançarinos (as) juntamente com as palmas fazem a marcação rítmica do Coco. A batida principal são três marcações fortes com o pé direito e uma mais fraca com o pé esquerdo, dependendo do Coco, as marcações são outras. Existem marcações mais rápidas e outras mais lentas. Como já disse, depende do Coco (de Roda, Embolada, Desafio…) e da região (PE-PB-AL…).
Como é um ritmo feito pelo povo e também uma dança feita para o povo, o Coco é a integração entre os mais diferenciados setores sociais da comunidade englobando qualquer tipo de brincante. No Coco não há distinção alguma, todo mundo brinca independente do gênero, da raça, da crença ou condição financeira. Alguns artistas são “canonizados” na arte do Coco, pessoas como Flora Mourão, Jackson do Pandeiro, Lula Calixto, Bezerra da Silva, Selma do Coco, Lia de Itamaracá e Zé Neguinho do Coco. Inúmeros nomes (nordestinos ou não) da MPB (Música Popular Brasileira) sofreram e sofrem influencia do Coco. Nomes como Alceu Valença, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Paralamas do Sucesso, Fagner, Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Fernanda Abreu, Gabriel o Pensador, Domingunhos, Sivuca, Zé Ramalho, Renata Arruda, Elba Ramalho entre outros. A própria cena Mangue através de suas bandas também beberam da água musical do Coco, bandas, cantores e cantoras como Chico Science & Nação Zumbi, Otto, Silvério Pessoa, Ortinho, Comadre Fulorzinha, Escurinho, Issar França, Cascabulho, Khrystal, Alessandra Leão e Lenine.
Referencias Bibliográficas:
BRINCANTES. Recife: Prefeitura da Cidade, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2000. p. 104-107.
RIBEIRO, José. Brasil no folclore. Rio de Janeiro: Gráfica e Editora Aurora, 1970. p. 403-404.
Nova História da MPB. 2ª Edição. 1977. Ed. Abril Cultural
CASCUDO Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro
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