quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O QUE O VENTO NÃO LEVOU


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as
                                     [únicas
que o vento não conseguiu levar:
 
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...
 
 
 
Mario Quintana
do livro a Cor do Invisível (1989)

O Tempo do Silêncio


    Havia um tempo em que os homens eram diferentes de agora. A sua visão era muito mais aguçada, a sua escuta era afinadíssima e não havia o mais leve cheiro que pudesse lhes  escapar. Aliás, para ser preciso, não havia nada que lhes pudesse fugir: sentiam tudo. Quando as ondas se quebravam contra as rochas distinguiam com clareza o som de cada pequena gota; quando os grilos cantavam distraídos pelas noites de verão, os homens acompanhavam sem esforço o ruído de suas perninhas. Não perdiam de vista os germes, sempre prontos para dar o bote, e se divertiam ao ouvir o açúcar se dissolver no café. E este dom não se limitava as coisas próximas: estava entre suas habilidades contar as árvores no fundo de um vale e escutar o ressoar de sinos de lá do mar. Até que um dia, um deles se deu conta de que desse jeito as coisas não iam acabar bem. Havia muitas distrações, muitas coisas presentes; não era possível acompanhar uma conversa sem escutar em volta os ruídos de todas as outras conversas em volta. Enfim, era um grande pandemônio, e naquelas condições era impossível trabalhar.
    Diante desta revelação, os outros também se sensibilizaram e decidiram fazer alguma coisa. Todos colocaram um par de óculos escuros, cera no ouvido e taparam o nariz com a ajuda de um pregador de roupas. Quando finalmente tiraram o pregador, a cera e os óculos, eram mais ou menos cegos e surdos como agora, mas em volta não tinha mais a confusão daquela época. Desta vez parecia, enfim, que havia silêncio.
Hermano Bencivenga
Tradução: Paula Carrara

OS POEMAS


Os poemas são como pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão
Eles não tem pouso
nem porto
alimentam-se um instante, em cada par de mãos
e partem
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
 
Mario Quintana
do livro “Esconderijos do Tempo” (1980)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

Ed Bahia / Ai que Saudade D'ocê




Estava aqui pensando em como falar do Ed, fui ler um post antigo do meu blog www.zuzaz.blogspot.com e resolvi dividir com vocês...

6 de Setembro de 2009

Conheci essa música de Vital Farias cantada por Geraldo Azevedo somente há uns 3 anos, quando Ed Bahia me apresentou; era uma música com a qual ele se identificava muito por ter trabalhado como caminhoneiro e ter vivido a situação que a canção descreve, a saudade que quem está na estrada sente da pessoa amada distante.
Ela me levou a mais tarde descobrir o tesouro da música de Vital Farias, Geraldo Azevedo, Elomar e Xangai pelo fantástico álbum "Cantoria", uma música que conjuga uma verdade e simplicidade próprias da alma regional brasileira com uma desenvoltura técnica vocal e instrumental, uma riqueza poética e uma expressividade na interpretação impressionantes, um disco lindo.

Conheci Ed Bahia em 2006, quando o departamento de cultura de São Bernardo fundou o grupo Balaio Brasileiro e me convidou pra ser um dos coordenadores do projeto, a idéia era juntar alunos que se destacaram nas oficinas culturais da cidade e formar com eles um grupo musical. De lá pra cá muito mudou mas o grupo continua, atualmente sou o diretor musical do grupo e participo cantando e tocando (mais informações no blog:http://www.balaiobrasileiro.blogspot.com/, veja também vídeos no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=TxFYL5OqDhs&feature=related).

Ed era um dos percussionistas do grupo (com alfaia na mão) mas sua intenção real era cantar, ele compunha, tocava um pouco de violão e cantava; "Ai que saudade de ocê" foi a canção que ele sugeriu, que acabou entrando no repertório com ele cantando. A 1a estrofe da canção era meio declamada, cantada bem lentamente, sem pulso, bem livre... e o engraçado é que ele sempre se emocionava, as vezes chorava e não conseguia seguir a estrofe até o fim. Depois de algumas vezes virou uma piada interna do grupo: "será que o Ed vai chorar desta vez?" Ele se explicava, dizia que via a esposa na platéia e lembrava das tantas vezes que estava longe dela, na estrada, ouvindo a música que estava prestes a cantar... e aí não tinha como, chorava mesmo!

Ele era uma daquelas pessoas alegres, cheias de vida, de temperamento forte, se orgulhava da "nacionalidade" baiana (daí o nome artístico) e se envolvia emocionalmente em tudo que fazia, sua relação com música era daquelas fortes e diretas, tocava e cantava o suficiente para transmitir o que carregava o peito, sem maiores preocupações.
No dia 24 de Junho de 2009, Ed morreu vítima de um acidente na BR-381 em Pouso Alegre, ele estava a serviço, seu caminhão havia quebrado e ele estava no acostamento quando outro caminhão o atropelou.

Apesar de ele estar afastado do grupo há aproximadamente um ano, o choque foi grande, e agora que estamos num momento de renovação de repertório não poderíamos deixar de pensar em uma homenagem, "Ai que saudade de ocê" vai voltar ao repertório com outro arranjo, hoje fiz um trecho do arranjo vocal que o grupo cantará, gravei só com a minha voz e fiz uma montagem com alguns trechos de comentários do Ed Bahia gravados de shows. Não sei bem de que a arte serve nessas ocasiões, será que ela pode de alguma forma dar sentido a essas fatalidades estúpidas?
De qualquer forma gostaria que ouvissem abaixo. Tenho certeza que o arranjo vai ficar lindo, e o interessante é que já no ensaio me senti como Ed Bahia, incapaz de conter a emoção, cantando com a voz embargada pelo choro que quer sair.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Renato Teixeira


RENATO TEIXEIRA POR ELE MESMO


Confesso que não é nada fácil ter que contar minha história. Viver é uma coisa tão normal, que não vejo diferença nenhuma entre a vida de um artista e de qualquer pessoa. Entretanto, num determinado momento de nossa carreira, o trabalho que realizamos começa a ganhar notoriedade e a curiosidade aumenta, então a gente conta alguma coisa...

Muitos estranham o fato da minha música ter origens caipiras e eu ser caiçara, nascido em Santos. Vejo isso como uma questão puramente familiar; são fatos circunstanciais, apenas. Passei a infância em Ubatuba e a adolescência no interior do Estado. Meu pai melhorou de emprego com essa mudança; eu e meu irmão já estávamos em idade escolar; Taubaté, naquele momento, era mais conveniente. Mudamos para lá. E foi muito bom! A música, em Ubatuba, já fazia parte do meu dia-a-dia.

Das atividades familiares a que mais me interessava era a música; todos tocavam e alguns eram, verdadeiramente, músicos. Eu poderia ter sido fogueteiro como meu avô Jango Teixeira, que tocava bombardine na banda. Poderia ter sido professor como meu avô paterno, Theodorico de Oliveira, que tem uma linda história intelectual com a poesia e a literatura.

Mas a música não me deixou espaços. Quis ser arquiteto por influência de um verso de Manuel Bandeira pregado na parede do atelier do Romeu Simi,; " Passou a arquitetura, ficou o verso." Vim para São Paulo no final dos anos sessenta, por indicação de Luiz Consorte que colocou uma fita com minhas músicas nas mãos de seu tio, Renato Consorte, que a enviou para os ouvidos do Walter Silva. Dei sorte! O Walter era um grande promotor de novos artistas e um homem muito conhecido nos meios de comunicação. As portas se abriram e, logo eu estava no Festival da Record de 67. Minha música era Dadá Maria e foi defendida pela Gal Costa (também em começo de carreira) e pelo Silvio César. Mas, no disco do festival, quem canta com Gal sou eu. Foi minha primeira gravação. Participei daquela fatia da história da MPB como um espectador privilegiado.

Sempre procurei conhecer a nossa história musical, ouvir todas as canções e todos os gêneros. Do samba à música caipira. Em tudo que ouvi sempre deparei com o talento e a vocação dos compositores brasileiros. A geração musical que frutificou da Bossa Nova, nos anos sessenta era chocante. Uma linda síntese de tudo que aconteceu de essencial na música brasileira até então. Foi uma festa. Ouvi a Banda do Chico em São José dos Campos, antes do festival e foi um impacto inesquecível. Ainda morava em Taubaté.

Ouvi Milton Nascimento antes do sucesso, e era deslumbrante. Todos que o conheceram nessa época, já tinham por ele uma admiração que só os grandes mitos podem desfrutar. Vimos e ouvimos Elis, todos os dias. Assisti bem de perto o surgimento do Tropicalismo. Na virada dos anos sessenta para os setenta a música silenciou. Fui fazer jingles publicitários para sobreviver. Acontece que gostei muito do assunto.

Enquanto atuei nessa área consegui realizar um bom trabalho, pois criei jingles que fizeram muito sucesso como aqueles do Ortopé, do Rodabaleiro e do Drops Kids Hortelã, que muita gente lembra até hoje. Nesse tempo já havia me identificado totalmente com a música caipira. Participei efetivamente da Coleção Música Popular Centro Oeste/ Sudeste do Marcos Pereira onde gravei algumas canções; entre elas: "Moreninha Se Eu Te Pedisse ". Com meus lucros publicitários e em parceria com Sérgio Mineiro, criei o Grupo Água, que nós dois bancávamos.

Tocávamos sem visar lucros. Foi com esse grupo que consegui assimilar o espírito da cultura caipira e projetá-la de uma forma contemporânea para todo o Brasil. Tocamos muitos anos juntos até que, um dia, a Elis gravou Romaria e convidou o grupo para acompanhá-la na gravação. Foi um grande sucesso que mudou minha carreira e criou um grande espaço para que a música do interior paulista invadisse o mercado. Hoje vivemos um processo seletivo e a tendência é que, cada vez mais, as pessoas entendam o que Elis quis dizer, quando gravou Romaria.

A parceria com Almir Sater é um grande momento na minha história. Juntos compomos alguns sucessos que são fundamentais para a sustentação das nossas carreiras. As mais conhecidas são Um Violeiro Toca e Tocando Em Frente. Outra parceria importante foi com a dupla Pena Branca e Xavantinho. Nosso encontro foi em Aparecida do Norte no início dos anos oitenta e, juntos gravamos o disco "Ao Vivo em Tatuí", que se transformou num marco no gênero. Aprendi muito com esses dois companheiros, verdadeiros representantes da cultura caipira.

A morte de Xavantinho foi prematura, sua partida impediu que pudéssemos usufruir mais da voz deste que, na minha opinião, foi um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos. Meu projeto de vida é dar continuidade ao meu sonho de divulgar e difundir cada vez mais o espírito do caipirismo valeparaíbano; não pela repetição das velhas formas e sim pelo potencial que esse Universo cultural oferece para que, como sempre, a música brasileira avance em direção ao futuro, coerente com a evolução, naturalmente moderna.
http://www.renatoteixeira.com.br/site/


Biografia

Cantor. Compositor. Passou a infância em Ubatuba, SP, indo aos 14 anos para Taubaté, onde viveu até os 24 anos. No início dos anos 1960 trabalhou como radialista na Rádio Difusora de Taubaté, onde através do discotecário Teodoro Israel, tomou conhecimento da música sertaneja. Mudou-se para São Paulo em 1967, onde no Bar Patachou, na Rua Augusta, dividiu mesas e debates com artistas de sua geração, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa e Geraldo Vandré.



Dados Artísticos

Em meados dos anos 1960 formou a "Banda Água" e abriu um estúdio de jingles publicitários. Em 1967 participou do III FMPB, na TV Record em São Paulo, com a composição "Dadá Maria", sendo defendidaa por Gal Costa e classificada entre as finalistas. A mesma composição seria posteriormente regravada por Clara Nunes e Sílvio César. Em 1968 participou do IV FMPB da TV Record, com a composição "Madrasta", interpretada por Roberto Carlos. Em 1972 conseguiu classificar sua composição "Marinheiro" para o VII FIC da TV Globo. No mesmo período participou da série  de discos dirigida por Marcus Pereira, "Música Popular Brasileira", no volume "Música do Centro-Oeste-Sudeste". Por essa época, começou a trabalhar com os velhos temas caipiras, com a "Banda Água", formada por Carlão de Souza, Sérgio Mineiro, Rodolfo Grani, Oswaldinho do Acordeom, Dudu Pontes, Marcinho Werneck, Papete, Luiz Roberto de Oliveira, Nelson Ayres  e Amilson Godoy. Começou gradativamente a migrar de gênero musical, procurando entretanto mesclas de diversas tendências e estilos musicais. Em 1977  sua composição "Romaria" foi gravada por Elis Regina, tornando-se rapidamente um estrondoso sucesso em todo o país, alterando até velhos preconceitos, ao afirmar convictamente no refrão: "Sou caipira". "Romaria" foi gravada, entre outros, por Tião Carreiro e Pardinho, Sérgio Reis, Pedro Bento e Zé da Estrada, Leandro e Leonardo, Inezita Barroso, Chitãozinho e Xororó, João Mineiro e Marciano, Fábio Júnior, Paçoca, pelo pianista americano Richard Clayderman e também pelo grupo de rock paulista Dr. Jack. A música entrou ainda para a trilha sonora da série da TV Globo "Carga pesada". O poeta Haroldo de Campos em entrevista à revista "Veja" fez elogios à letra de "Romaria", considerando-a uma das melhores da música brasileira nos anos 1970.
Em 1987, teve as composições "Ave marinha", parceria com Almir Sater e Kapenga e "Homem não chora", gravadas no CD da cantora Alzira Espíndola. Em 1989, a música "Sanfona", parceria com Cezar do Acordeom foi gravada no LP "Forró bom! - É do ABC!!!", da gravadora Musicolor/Continental" na interpretação de Cezar do Acordeom. Em 1990, a dupla Pena Branca e Xavantinho gravou a toada-balanço "60 léguas num dia" e "Seu" Chico Alves" no LP "Cantadô de mundo afora". Em 1985 participou do disco "Grandes cantores sertanejos", da Kuarup, ao lado de Xangai, Cida Moreira, Elomar, Sivuca e Geraldo Azevedo, entre outros. Em 1992 lançou pela gravadora Kuarup o CD "Renato Teixeira e Pena Branca e Xavantinho". No mesmo ano recebeu o Prêmio Sharp. Em 1997 participou do disco "Cantorias e cantadores", também pela Kuarup. Entre seus grandes sucessos estão "Sina de violeiro", regravada em 1996 por Sérgio Reis, e "Tocando em frente", parceria com Almir Sater, e presenças constantes em seus shows. Realiza uma média de dez shows por mês, principalmente na região do Vale do Paraíba, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso. Ainda em 1997 realizou o show "30 anos de carreira" no Canecão no Rio de Janeiro. Um de seus principais parceiros é Almir Sater, com quem compôs, entre outras, "Boiada", "Missões naturais", "Terra dos sonhos" e "Trem de lata". Em 1998 lançou pela Kuarup o CD "30 anos de romaria", com uma retrospectiva de sua carreira. Em 1999 gravou ao vivo com Xangai o CD "Aguaterra", em show realizado na sala Adoniran Barbosa em São Paulo, contando com as participações especiais de Natan Marques e Cassio Poleto. Na ocasião interpretou de sua autoria "Olhos profundos", "Guardiões da floresta" e "João Alegre". Em 2000 lançou com o multicordas Natan Soares o CD "Alvorada brasileira", no qual interpreta antigos sucessos como "Rural" e "Invernada", e novas músicas como a country "Transformação". O disco contou ainda com a participação de Oswaldinho do Acordeom, na faixa "Jaci" e do violinista Cássio Poleto na faixa "Tutu com torresmo". Em 2002 teve a música "Pequenina" gravada por Xangai no CD "Brasileirança". Ainda no mesmo ano, exibiu-se em espetáculo no Rio de Janeiro acompanhado por sua filha, nova cantora por ele lançada. Também no mesmo ano, apresentou-se no Teatro da UFF em Niterói no Rio de Janeiro juntamente com Pena Branca, Elomar, Teca Calazans e Xangai no show "Cantoria brasileira", comemorativo aos 25 anos da gravadora Kuarup. Ainda no mesmo ano, participou do CD "Cantoria brasileira" comemorativo dos 25 anos da gravadora Kuarup, juntamente com Pena Branca, Elomar, Teca Calazans e Xangai.
Em 2003, apresentou-se em show no Canecão juntamente com Pena Branca apresentando canções como "Romaria"; "Amanheceu" e "Tocando em frente", de sua autoria, além de "Cio da terra", de Milton Nascimento e Chico Buarque e "Canto do povo de um lugar", de Caetano Veloso. Nesse mesmo ano, fez participação especial no CD "Alma Lavada", lançado por Cláudio Lacerda, interpretando com o mesmo, "Olhos profundos", de, de sua autoria.  Em 2005, apresentou-se no programa "Viola, minha viola", comandado por Inezita Barroso, na TV Cultura de São Paulo. Também nesse ano, lançou CD com Rolando Boldrin em que confirma seu sotaque caipira. O disco revisita obras de compositores de todo o país e mereceu boa aceitação da crítica especializada.Traz destaques como, entre outras, "Ventania", de Geraldo Vandré e Hilton Acioly, que concorreu, também com o subtítulo "De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando", no Festival da Record de 1967, "Tempero das aves", do próprio Boldrin, "Vaca estrela e boi fubá", de Patativa do Assaré, "Acorda Maria Bonita", atribuída ao cangaceiro Volta Seca (Antonio dos Santos), do bando de Lampião, além de passar por obras de Lupicínio Rodrigues e até Chico Buarque, na composição tema para a peça "Morte e vida severina", sobre o poema de João Cabral de Melo Neto. O disco conta com participações como as de Almir Sater, que  toca viola (no clássico "Chico Mineiro", de Francisco Ribeiro e Tonico, da dupla com Tinoco), Paulo Sérgio Santos, no clarinete e Rodrigo Sater e Chico Teixeira nas cordas. Em 2007, sua composição "Romaria" foi escolhida para ser interpretada com variações, por Inezita Barroso, em dueto com a cantora lírica Nize de Castro Tank, juntamente com "Luar do sertão", de Catulo da Paixão Cearense, no CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, em duas sessões da série "Líricas e Populares". No mesmo ano, lançou CD/DVD gravado ao vivo no auditório Ibiapuera no qual fez uma revisão de sua carreira. O CD contou com as participações especiais de Pena Branca na faixa "Quando o amor se vai", Chitãozinho e Xororó na canção "Frete", a cantora Joana em "Recado", e o argentuino Leo Gieco na composição "La cigarra". Em novembro de 2008, apresentou-se no programa "Viola, minha viola" apresentado por Inezita Barroso, na TV Cultura, acompanhado do filho Chico Teixeira que já toca com ele há cinco anos. Na ocasião cantaram as músicas "Guardiões das florestas", de sua autoria, "Fogo no Paraná", de João do Vale, "Pai e filho", uma versão sua e do filho Chico, para a canção "Father's and son's", de Cat Stevens, e "Rapaz caipira", de sua autoria. Em junho e julho de 2009, participou do Circuito Syngenta de Viola Instrumental, ao lado de Levi Ramiro, Sidnei de Oliveira e Chico Moreira, tendo se apresentado no Teatro Municipal Paulínia e no Alpha Paulistano, ambos em São Paulo. No mesmo ano, participou da gravação do  DVD "Um Barzinho, Um Violão-Sertanejo", lançado pela Sony Music, cantando, ao lado da Cantora Ivete Sangalo, a música "Romaria", de sua autoria. O show, que foi gravado na Arena Country (SP), contou com artistas como Hugo & Tiago, Grupo Tradição, Fafá de Belém, João Bosco e Vinicius, Guilherme e Santiago, Cézar e Paulinho, entre outros. Ainda em 2009, teve participação especial na música "Contador de Causo", cantada Chico Teixeira, e lançada no CD da trilha sonora da novela "Paraíso", da Rede Globo de Televisão. Em setembro de  2010, gravou, com Sérgio Reis, o CD/DVD "Amizade sincera", pelo selo Som Livre. A intenção do  show, realizado no Teatro Bradesco, em São Paulo (SP), foi de realizar uma grande viagem pela música ruralista brasileira, com 20 faixas e 2 extras. O álbum contou com a participação especial de Paula Fernandes, na música "Tristeza do Jeca", e da dupla Victor & Léo, nas músicas "E Quando o Dia Nascer" e "Vida boa".  Em 2011, teve a sua música, "Tocando em frente" (c/ Almir Sater), gravada pela cantora e compositora Paula Fernandes, no DVD "Paula Fernandes ao vivo", lançado pela Universal Music. A faixa contou com a participação especial do cantor e compositor Leonardo. O álbum ultrapassou a marca de 700 mil cópias vendidas.



http://www.dicionariompb.com.br/renato-teixeira/



sábado, 23 de julho de 2011

Ituaçu, Bahia, cidade onde Gilberto Gil passou a infância


depoimento de Gil sobre Ituaçu: "lugar que ocupa uma função mítica na minha vida"



Visitem a casa onde Gil viveu quando criança! :)




Matéria sobre a Gruta da Mangabeira, local de peregrinação, em Ituaçu

Ituaçu - A história do vaqueiro que saiu ileso após cair de uma altura de 30 metros deu início a uma das maiores romarias da Bahia na Gruta da Mangabeira, povoado de Ituaçu, município localizado a 524 km de Salvador, no sudoeste do Estado. A romaria costuma reunir, anualmente, mais de 60 mil pessoas. A Gruta da Mangabeira fica a 3 km da sede do município.

Paralela à religiosidade das centenas de fiéis que chegam até de outras partes do País para louvar o Sagrado Coração de Jesus, padroeiro local, está a beleza ímpar da gruta. O local foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1962.

Dentre os vários devotos, as lavradoras Isalina Rosa de Souza, 62 anos e Valdi Francisca de Jesus, 65 anos , se destacam pelas mãos postas e semblante de profunda reflexão. Já os amigos Fabiano Barbosa Santos, 35 anos e Wilson Silva Cruz, 32 anos, percorrem os 165 km que separam Vitória da Conquista de Ituaçu há seis anos, pedalando bicicletas. Nenhuma promessa em comum foi feita, mas de acordo com eles, o esforço é pelo prazer da aventura e o de rever velhos conhecidos que moram na cidade.

Beleza - A Gruta da Mangabeira encanta com a beleza de suas mais de 70 formações naturais em formas de objetos, figuras sacras, animais e passagens bíblicas. Foi esse conjunto que levou uma família a sair de Brasília para conhecer o lugar e levar uma de seus membros a pagar uma promessa.“Vim aqui agradecer a Deus e ao Bom Jesus por uma graça alcançada em nome do meu filho”, contou a dona-de-casa, Vanda Ferreira Ribeiro, 61 anos. “Pretendo voltar mais vezes aqui”, disse.

Mas é preciso muita determinação para descer os 99 degraus em cimento, chegar ao salão principal, seguir em frente e vencer os 3.230 metros de extensão da gruta. ‘“A maioria chega até os 1.780 primeiros metros, onde a iluminação artificial acaba. Nos 850 metros iniciais, fica uma formação que se assemelha a um coração, considerado sagrado pelos visitantes”, conta o guia Antônio Carlos Novais, 40 anos, que está há 19 anos em atividade no local.

depoimentos de Gilberto Gil



(Luiz Gonzaga, João Gilberto e Beatles - páginas 20-25)

(Augusto de Campos) Que fatos você considera essenciais para a sua própria evolução musical?
O primeiro fenômeno musical que deixou um lastro muito grande em mim foi Luiz Gonzaga. Em grande parte pela intimidade que a música de Luiz Gonzaga teve comigo. Eu fui criado no interior do sertão da Bahia, naquele tipo de cultura e de ambiente que forneceu todo o material para o trabalho dele em relação à música nordestina. Uma outra coisa bacana do Luiz Gonzaga - e a consciência disso veio depois, quando eu já especulava em torno dos problemas da MPB - foi o reconhecimento de que Luiz Gonzaga foi também, possivelmente, a primeira grande coisa significativa do ponto de vista da cultura de massa no Brasil. Talvez o primeiro grande artista ligado à cultura de massa, tendo a sua música e a sua atuação vinculada a um trabalho de propaganda, de promoção. Nos idos de 1951-52, ele fez um contrato fabuloso de alto nível promocional, com o Colírio Moura Brasil, que organizou excursões de Luiz Gonzaga por todo o Brasil.

(...) Quanto à idéia de uma música moderna popular brasileira, ela tem mais ou menos o mesmo sentido. É a idéia da participação fecunda da cultura musical internacional na música popular brasileira. De se colocar a MPB numa proposta de discussão no nível da música e não no nível de uma coisa brasileira com aquela característica de ingenuidade nazista, de querer aquela coisa pura, brasileira num sentido mais folclórico, fechado, uma coisa que só existisse para a sensibilidade brasileira. E, partindo dessas duas premissas, eu acho que agora, de uns seis meses pra cá, com esses novos resultados conseguidos principalmente pelo Caetano, essa linha evolutiva de João e a consecução dessa música popular moderna entraram em processo.

(Augusto de Campos) E você sabe que fim levou o próprio Luiz Gonzaga (Obs.: Luiz Gonzaga faleceu em 1989, a entrevista deve ter sido em data anterior)?

Luiz Gonzaga, hoje, mora no Rio de Janeiro, na Ilha do Governador, tranquilo, aposentado, com uma consciência espetacular a respeito de todas as coisas que foram significativas na música brasileira. Estive com ele no Natal do ano passado, por acaso. Ele, inclusive, comentou a propósito dessa coisa nova. Como ele entendia o significado da Bossa Nova, da cultura urbana, do universitarismo, da busca de maior aprimoramento cultural por parte dos novos compositores. Falando de “Procissão”, ele dizia: “Puxa, Gil, como eu gostaria de ter feito essa música. Agora , você sabe, nego, uma coisa, eu não tive nem o curso primário. Vocé é um cara formado, você pode dizer assim as coisas. Eu queria dizer essas coisas mas não sabia, eu não tinha estudo, eu não sabia jogar com as idéias. E tinha uma outra coisa. Vocês hoje reclamam, vocês falam da miséria que existe no Nordeste, da falta de condições humanas. Eu não podia, eu falava veladamente, eu era muito ligado à igreja no Nordeste. Eu tinha compromissos com os coronéis, com os donos de fazenda, que patrocinavam as minhas apresentações. Eles eram o meu sustento. Eu não podia falar muito mal deles”. É assim o Luiz Gonzaga, que foi o Rei do Baião. Ele é tão emocionante como o Caymmi e João Gilberto. O que eu sinto quando estou diante deles é a mesma coisa: o reconhecimento, naquela figura humana, de um trabalho imenso, de uma dádiva fabulosa para o desenvolvimento da cultura musical brasileira.


(Augusto de Campos) E depois de Luiz Gonzaga?
Depois de Luiz Gonzaga foi o João Gilberto. E o João por todas essas coisas que nós já discutimos. E, posteriormente, como dado recentíssimo, os Beatles e toda a música pop internacional. Isso principalmente pelo exercício de liberdade nova que eles propuseram à música popular do mundo inteiro, o que é uma coisa flagrante, e pelo sentido de descompromisso que eles impuseram com respeito ao que já tinha sido feito antes, mesmo com a música clássica, erudita. Os Beatles quase que puseram em liquidação todos os valores sedimentados da cultura musical internacional anterior. Eles procuraram colocar tudo no mesmo nível - o primitivismo dos ritmos latino-americanos ou africanos em relação ao grande desenvolvimento musical de umBeethoven, por exemplo. O valor reconhecidamente desenvolvido na Música Renascentista em relação, por exemplo, ao folclore escocês. Eles pegam essas coisas todas e colocam numa bandeja só, num único plano de discussão. Esses três - Luiz Gonzaga, João Gilberto e os Beatles - foram os marcos d eminah formação musical, num sentido profundo.


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(A unidade é o Infinito - páginas 100-101)


Você é uma pessoa sempre voltada pra síntese, né, Gil?
Sou muito... eu sou muito preso à idéia de unidade. A idéia de unidade, pra mim, é uma coisa do universo. O universo pra mim é uno, é integral. A idéia de caos é uma coisa que eu entendo, que povoa meus sentidos... a minha razão é o meu discernimento, mas a idéia de unidade é o sintoma básico da minha alma, entende? Mesmo, isso talvez por formação religiosa, tá entendendo? Pelos valores, digamos, morais e... religiosos e tudo, que forjaram a minha personalidade. (...)
Eu sou muito pequeno, é isso que eu acho. Eu sou muito pequeno quando me coloco em termos de universo. Então (...) a unidade é a única maneira do encontro, é a única coisa possível mesmo.

(...) É que eu resolvi virar uma antena ou um pára-raio. E deixar bater tudo quanto é força da natureza que puder bater - homens, pensamentos, palavras, fatos visões, imagens, tudo, tudo, tudo, sensações...


Eu já não consigo me resguardar, já não consigo... economizar o meu espírito e a minha alma pra um investimento localizado em termos de “eu vou me poupar” porque eu agora vou ser um escritor, eu vou me poupar porque eu vou ser um homem religioso, vou me poupar porque agora vou ser um músico.

A unidade pra mim é vista não no sentido do número um, mas do sentido do número infinito. O sinal infinito, da soma das unidades, é isso mesmo.



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(leituras de Gil - páginas 178-180)


Se você tivesse que apontar um livro que fez sua cabeça, qual você apontaria?

...A decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, os livros de Mircea Eliade... João Cabral de Mello Neto foi muito importante para minha maneira de poetar: Duas Asas, Morte e vida Severina, Educação pela pedra.... Também li coisas de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Os Sertões, de Euclides.

(...) João Cabral é marcante nessa coisa de poesia. Também Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, e Os quatro quartetos, de Eliot, me marcaram muito. Li mutia coisa de Drummond... Também gosto de publicações científicas, de filosofia, antropologia (...) De repente, posso estar lendo, por exemplo, sobre a teoria da Relatividade de Einstein.
(...) quando leio, nunca leio um só livro de cada vez. Em geral, leio dois, três livros... (...)

Agora, eu estou lendo um livro de História Universal, de Miircea Eliade, que faz paralelos entre civilizações antigas - fases da Grécia e fases das civilizações maia, tauteca, asteca - , comparações entre o Renascimento e fases antigas da ìndia..

Eu folheio um, dois capítulos; não sou um leitor sistemático não. Muitas coisas eu nem leio inteiras; O capital, de Marx,por exemplo, eu li pela metade...


O que você lê e o que escreve em suas letras de músicas mostram uma profunda vocação sincretista...
É, eu tenho uma dificuldade com a ortodoxia em qualquer sentido. O sentimento de aculturação é sempre mais forte do que o sentimento de preservação de culturas primitivas.

O meu empenho é muito mais no sentido de pegar, misturar, trazer a coisa para o plano do cosmopolitismo moderno.



trechos extraídos do livro do Julius, com várias entrevistas concedidas por Gil.
Encontros Gilberto Gil
Sergio Cohn, org.
Azougue Editorial - 2008

Texto sobre curadores (enviado pela Renata)

C U R A D O R E S


Na cultura popular do Jequitinhonha, quem trata os doentes é o benzedor, a rezadeira, o raizeiro, a parteira, o meizinheiro. As grandes diferenças entre o curador do povo e o médico profissional explicam a desconfiança do povo frente à medicina oficial. O médico não conhece as plantas medicinais e nenhuma benzeção. Além disso, parece melhor não conversar com o doutor sobre as simpatias.

Na religiosidade popular, qualquer cura é obra de Deus. Dizem: Deus cura e o médico manda a conta. As rezadeiras dizem: É Deus que cura, não podemos cobrar. Ouçamos o benzimento para mau jeito:

Te curo de carne quebrada, torna te a soldar./

Nervo torto torna a seu lugar./

Nervo que retorceste, Deus que te põe onde nasceste./

Eu que te benzo. Deus que te sare./

Onde eu ponho as minhas mãos, Nossa Senhora dá santidade./

Deus queira curar esta quebradura,/

esta rendidura que esse pobre enfermo tem./

Seja pelo amor de Deus, seja tudo. Amém.//

(Ribeirão Preto.SP.1994)

Alguns exemplos citados não são de Minas, mas tem variações no nosso Estado. Isso pouco importa quando a quase totalidade veio mesmo de Portugal e foi adotada e recriada aqui.

Uma cura milagrosa pertence às possibilidades. Segundo várias histórias populares, o próprio Jesus ensinou orações e remédios. Como exemplos citamos as benzeções de erisipela, peito arrotado e engasgo. Também os santos curam por intercessão divina: Santa Iria, Santa Luzia, São Sebastião, São Lázaro, Santo Antônio, São Brás, Santos Reis, São Raimundo Nonato, São Bento; também os santos não canonizados: Doutor Guerra, a parteira Maria Conga, Padre Eustáquio, Padre Frei Clemente, e muitos outros. Observamos que o santo curador às vezes conhece a doença por experiência própria: Santa Luzia que perdeu a vista, cura os olhos; São Lourenço que foi martirizado no fogo, cura as queimaduras; Padre Frei Clemente morreu envenenado e é invocado contra a picada de cobra.

Na medicina popular, o tratamento geralmente supõe um ritual. A cura pode ser o resultado de um exorcismo.

Nas tradições afro-brasileiras e indígenas, o curador é um intermediário privilegiado entre o mundo dos homens e o mundo dos espíritos, sejam caboclos, pretos velhos ou outros. Possuído por entidades espirituais, o xamã exerce seu papel terapêutico pelo bafo sagrado. No candomblé, os orixás Omulu(“o médico dos pobres”) e Ossáin(orixá das folhas) tanto curam como podem causar doenças.

Paulo César Alves tece interessantes reflexões sobre a vocação do curador no jaré: “São os caboclos(antepassados) que forçam o indivíduo a tornar-se curador, causando-lhe uma série de infortúnios até que ele resolva acatar seu destino. Praticamente nenhum curador fala da sua carreira enquanto escolha pessoal.<...> Ele é escolhido pelas divindades e essa escolha é revelada por sonhos, transes e, principalmente, comportamentos associados à loucura”.1Tal curador não precisa de estudos, pois seu saber é revelado e o poder de cura lhe é dado pelos caboclos, segundo a ideologia local. A interpretação que o curador oferece para um determinado problema pouco se diferencia daquela dada pelo paciente.

Vamos olhar de perto o raizeiro, o benzedor, a rezadeira, e o doutor.

- O raizeiro: Trata-se de um homem que procura e vende as raízes medicinais, muitas já conhecidas pelo povo. Um raizeiro amigo me disse: No próprio mundo que Deus criou, tem remédio para tudo que o diabo tocou. Outro falou: Neste mundo de Deus tem tudo o que é remédio para as malartes do capeta. Além dos raizeiros que só preparam os remédios: rapé, banhos, banha, garrafada e explicam como fazer um chá, há outros que são curadores e dão olhada ou revista. Por ex.: O raizeiro Bilô(Araçuaí,MG) pede que as pessoas com doença ou outros problemas coloquem num papelzinho o nome, a idade e o incômodo. Quando vai preparar os remédios, põe a mesa para o Divino e entrega tudo a Deus que cura. Há pessoas que lhe pedem remédio para cura de doenças, para alguém parar de beber, para proteção de algum mal que está acontecendo, para as vacas darem cria e as éguas pararem de criar ou para tirar as cobras da roça. É comum hoje o raizeiro consultarem livros como: “As Plantas Curam.” de A.Balbach, 27ªEd. São Paulo, Ed.MVP, 1970; “Guia da medicina vegetal.” da A Natureza, produtos farmacêuticos em São Paulo(sem data); “Produtos Vegetais da Flora medicinal.” de Dr.J.R.Monteiro da Silva, Rio de Janeiro(sem data); “Cuide de sua Saúde.” de Jaime Brüning. 18ªEd. Cascavel, Assoeste, 1990.

- Temos também os benzedores homens e mulheres. Há três elementos essenciais para compreender o povo e o benzedor: a fórmula da bênção, a fé na cura que é dom de Deus e a confiança da comunidade no curador. - O benzedor tem que saber as orações. Uma benzedeira disse: Quem troca as rezas é desastroso igual o médico que troca os remédios. Mas, ao mesmo tempo, afirma que diante do doente, não sabendo a fórmula certa, qualquer palavra resolve, rezando com fé. - A cura é pela graça de Deus. Pela bênção do rezador, o doente sara. Às vezes, o benzedor sugere o uso de algum remédio. Mas ele “não cobra, senão estaria fazendo negócio e é Deus que cura”. - O benzedor é procurado por pessoas da sua comunidade. Quando o benzedor morrer, as pessoas procuram outro alguém que possa curar a picada de cobra, a espinhela caída, o quebranto. É a comunidade que faz o benzedor.

- O benzedor homem é procurado em especial para rezar em ofendido de bicho mau, para ir tirar cobras de uma fazenda, para estancar sangue, para curar bicheira e outras coisas. Mesmo assim, rezar em bicheira de animal qualquer pessoa de fé pode fazer.

- A rezadeira ou benzedeira reza em quebranto, e outros incômodos das crianças. Também em carne quebrada, fogo selvagem e muitas outras coisas de que sofrem os adultos. Não vemos rezadeiras falar em “dons paranormais”. - A rezadeira se moderniza. Além das plantas medicinais e das simpatias, pode até sugerir algum remédio que ela conheceu na farmácia. Pode aprender alguma reza nova. – A rezadeira conhece a família do doente.

- O que dizer do médico, o doutor? Secularmente, a arte de curar esteve ligada ao sacerdócio e ao culto, e ainda continua assim em diversas culturas. - Muitos dos nossos médicos não professam uma religião, mas mesmo os que são católicos não tem costume de rezar no consultório. – Outra coisa que nos preocupa é a função social do médico: O doente pobre e subnutrido procura o médico com queixas de dor de cabeça e de barriga. O remédio havia de ser o feijão. Qual o papel do médico numa sociedade que não valoriza o trabalhador e mantêm uma injusta distribuição de renda e de terras? Lembrei do desabafo de um médico cujo nome me esqueci: “Quando trato os ricos me sinto um lacaio, quando trato dos pobres me sinto um ladrão”. Problema semelhante encontram o padre, o psicólogo e outros profissionais. Uma coisa é certa: pouco adianta tratar o doente e devolvê-lo à sociedade doente. - Outra dificuldade do médico é a relação interpessoal com o doente. Pela universidade, o médico torna-se um profissional especialista que dificilmente conseguirá manter um contato pessoal com os seus muitos pacientes que vem de todo lugar. Talvez esta relação seja possível no sistema do médico da família. Por enquanto, vemos um desencontro que é reforçado porque o doente pobre do Jequitinhonha acha difícil acreditar no médico que não reza e que pratica uma medicina que o doente não compreende. Acredita mesmo é no rezador e no curador. Vejam alguns versos sobre o rezadô Zé Reimundo:2


Seu Doutô, eu nun lhe engano, Cum êle nun tem gogó:

eu tenho mais de trinta ano

qui moro nesse lugá.

Dou-lhe a palavra de home,

se nun qué morrê de fome,

vá vivê na capitá.

A coisa aqui tá isquisita,

povo nun aquerdita

im receita de dotô.

Já é custume da gente,

quando arguém istá duente,

chama logo o rezadô.

Cum a fé no coração

e três gáio de pinhão

três vez rezano incruzado

lhe garanto, Zé Reimundo

dêxa quarqué muribundo

bonzinho, forte e corado!

Panariço e sete côro,

firida braba e friêra,

murdidura de bisôro,

má de izipra e cocêra

e tudo quanto é firida,

dô de ispinhela caída,

garganta inchada e papêra.

Essa história de agunia,

quebranto, oiado,

três-só, injôo e manicunia,

Sarna, bixiga e sarampo,

ligêro como relampo,

cura da noite pru dia.

Purisso qui o pessuá

só precura Zé Reimundo!

Ele aqui nesse lugá,

é premêro sem segundo!

Inquanto hové rezadô

ninguém liga pra dotô,

nem que venha do ôto mundo!

Pois o próprio Zé Reimundo,

no tempo que aqui chegô,

mostrava pra todo mundo

seu diproma de dotô!

E quaje morre de fome!

Precisô mudá de nome

e trená pra rezadô!



Seja como for, é preciso conhecer as culturas dos pobres e seus valores. Médico tem que ser competente, senão, leva o título de “barbeiro”. O que, aliás, tem tudo a ver com a história da medicina.

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Capítulo:2

TR A T A M E N T O S :

Na medicina popular de origem européia, encontramos elementos celtas, grego-romanos, árabes, juntamente com partes da cabala, da alquimia, da medicina dos mosteiros e dos cirurgiões práticos. Acrescentam-se a isso rituais e remédios que vem da medicina indígena e da medicina africana, isto é, elementos banto e nagô.

Neste momento, quero lembrar duas coisas: - Simplesmente não é possível falar de todos os tratamentos populares. – Por isso, vamos dar uma grande lista de exemplos para mostrar com respeito uma grande riqueza. No entanto, não queremos apelar à ignorância.

Na medicina popular encontramos: chá de raízes, folhas, flores, cascas, sementes; tomam cachaça com raízes, ou mesmo com uma lagartixa torrada; tomam caldo de meleto e de mocotó; há o banho com plantas medicinais ou com bosta de boi que é bom para a pele; fricção com cachaça ou álcool e “alcanfor”, cobra, escorpião; inalação da fumaça de certa resina sobre brasa contra dor de cabeça; fumam cigarro de folhas, flores ou o cigarro contendo um espinho de ouriço caixeiro; barreiam o peito com lama da casinha da vespa “maria-barreira”; usam banha de jibóia, carneiro, galinha; pingam colírio de arruda nos olhos e sumo de saião nos ouvidos; urinam numa ferida fresca para estancar o sangue; fezes humanas quentes servem para tirar espinho ou levar a furo um furúnculo; colocam folha de fumo na barriga contra a dor e esquentam uma metade de laranja-da-terra na chapa do fogão para colocar na cachumba. Há também o costume de tomar a medida do corpo do doente, soprar o doente de cima até em baixo, pôr um galhinho de arruda atrás da orelha, costurar uma minúscula imagenzinha de Sto.Antônio dentro da pele, carregar um patuá ou uma medalha ao pescoço, pôr uma garrafa com água na cabeça para tirar-lhe o sol. Além de, batizar de novo, passar óleo de Bom Jesus de Congonhas, benzer com três raminhos, beber um copo de água que foi bento durante um programa de rádio. Em certos momentos, a cura é feita no rastro da pessoa ou do animal. Algumas moléstias são ferradas na Sexta-feira da Paixão. Vemos curadores costurando uma linha logo acima de uma carne quebrada. Outros curam, fazendo perguntas e exigindo respostas. Há procedimentos que buscam transferir para animais, vegetais e mesmo pedras as doenças que aparecem no homem. O povo tem esperança de livrar-se de febres, doenças de pele, úlceras, amarrando panos que tiveram contato com o corpo do doente em árvores como a gameleira, a pereira, o juazeiro, o cardeiro. Há os que benzem, antes do nascer do sol. Outros conversam com a lua. Registro o costume de amarrar um cordão de orações no corpo e de oferecer no santuário o peso do corpo em cera. Existe também o banho de cheiro. Uma vez que é melhor prevenir que remediar, muitos realizam rituais para fechar o corpo.

Para aproximar-nos mais do universo da medicina popular vamos observar alguns poucos tratamentos específicos:

AJUDAR A MORRER Quando a doença se prolonga indefinidamente, o povo comenta que o doente está tão fraco que não tem forças para morrer. Às vezes é preciso ajudar o doente a morrer. Usam passar sebo nas frontes ou dão de beber vinho de missa, leite de peito, ou caldo de sebo. Às vezes, quando o doente está endiabrado, com o espírito atormentado, resolvem até batizá-lo de novo. Outros rezam as palavras ditas e retornadas da oração do Anjo Custódio. Existe um emplastro para ajudar a morrer. Quando o doente está mal, completando as horas mas não morre por falta de força, faz-se um emplastro de ovo batido misturado com farinha de trigo e vinho e se coloca sobre o estômago do moribundo. Tudo isso é considerado uma obra de caridade.3

BICHEIRA Ferida causada por larvas da mosca varejeira. Quando um animal tem maus, isto é o verme da bicheira, é possível curar no rasto. Basta passar um ramo verde sobre o rasto do animal. Outros cobrem o rasto com uma pedra. Também pode bater com uma pedra em três rastos do animal. Getúlio César registra a seguinte oração: Maus que come, não se logra; quem come e não reza, não se salva. Oficial de justiça não se salva; delegado não se salva; promotor não se salva; juiz de direito não se salva e muitos padres colados não se salva. E assim, caia de um em um, de dois em dois, de três em três, de quatro em quatro, de cinco em cinco, de seis em seis, de 7 em 7, de 8 em 8, de 9 em 9, de 10 em 10, de 11 em 11, de 12 em 12, de 13 em 13, caia de um em um, não fique nenhum. Amém.4 Outras rezas contra bicheira: Assim como o trabalho no dia Domingo não põe ninguém pra diante, será também os bichos desta bicheira. Há de cair de nove a nove, de sete a sete, de cinco a cinco, de três a três, de um a um até ficar nenhum. Rezar 3 vezes. (GO). Mal que comeis a Deus não louvais! E nesta bicheira não comerás mais! Hás de ir caindo: de dez em dez, de nove em nove, de oito em oito, de sete em sete, de seis em seis, de cinco em cinco, de quatro em quatro, de três em três, de dois em dois, de um em um! E nessa bicheira não ficará nenhum! Há de ficar limpa e sã como limpas e sãs ficaram as cinco chagas de Nosso Senhor! Fazer uma cruz no ar.(CE). Um remédio usado contra bicheira é o pó de café.

BRONQUITE. Simpatia: três anos em seguida, na Sexta-feira Santa, levar a criança doente de manhã cedo no curral. Levanta-se algum boi deitado e coloca a criança no mesmo lugar quentinho onde o boi deitou.(Araçuaí.MG) A bronquite asmática, chamada estalecido, é curada com simpatia(uma formiga-onça costurada viva num patuá) e o remédio(óleo de tanajura).

BROTOEJA ou BROTOEJO Erupção na pele de criança recém-nascida. Em MG, para tratar de brotoejo, coloca-se um pedaço de caco de telha no fogo até ficar vermelho e coloca na água de banho da criança.

CARNE QUEBRADA Luxação, torcedura numa parte do corpo. Em todo o Brasil, benze-se cosendo com uma agulha um novelo de linha. Dizem coser de jeito. A rezadeira pergunta ao doente: Que é que eu benzo? Resposta:Carne quebrada, nervo rendido, osso partido. Repetem tudo 3x. Outra bênção pra coser carne quebrada: Cristo nasceu; Cristo ressuscitou. Emendai esta carne, este nervo, este osso que aqui me quebrou. Benzer em cruz(MG). A rezadeira Luiza Teixeira Ramalho em Araçuaí(MG), ensina um remédio: coloca uma papa de limão com sal; depois passa azeite doce para não dar izipa. É para juntar a carne e para encanar o sangue.(1994)

COBREIRO Na medicina: Herpes-zooster. Doença dolorosa da pele. Mancha de bolhas doloridas. As orações falam da cabeça e do rabo desta mancha. O cobreiro vem de aranha, lagartixa, sapo e todos os animais que tem peçonha. Quando estes bichos passam em cima das roupas estendidas no quintal pode largar o cobreiro. Por isso, não se deve vestir as roupas lavadas sem passar o ferro quente que mata o veneno. Há diversas maneira de curar: uns fazem cruzes com tição de fogo por cima do cobreiro; outros passam um ferro quente num pano que por sua vez é colocado quente no cobreiro; uns cosem ritualmente com agulha e pano. Todos fazem alguma bênção. Em MG, encontramos oração semelhante: O que corto? cocho, cochão, sapo, sapão, lagarto, lagartão, todo bicho de emanação para que não cresça, não apareça, não ajunta o rabo com a cabeça. Santa Iria tinha três filhas, uma lavava, outra cosia, outra pela fonte ia. Perguntou Santa Maria: cobreiro brabo com que curaria? Com um Padre-Nosso e três Ave-Maria, oferecidas às almas benditas que me auxilie nesse momento. Pede a presença do Pai Conguinho, Dr.Randolfo Soares e Nossa Senhora Aparecida.5 Em Cariranha(BA), a Dona Irene risca com caneta em volta do cobreiro e escreve Maria, valei-me. Ela explica: Se não cortar o cobreiro, ele dá a volta naquela parte do corpo e a pessoa morre.6 Outra rezadeira diz: Quando Jesus andava pelo mundo, encontrou São Pedro sentado numa pedra fria. - Que tem, Pedro? - Cobreiro bravo. - Curai, Pedro. - Com que, Senhor? - Com água da fonte, raminho do monte e as três pessoas da Santíssima Trindade Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.(Divinópolis.MG) Sumo do tronco da banana-de-São-Tomé é usado como remédio contra cobreiro.

DOR DE OUVIDO Contra a dor de ouvido existem remédios e a reza que começa com as palavras: Detrás das tabinhas, onde estava o Senhor escondido, pelo furto da galinha sara essa dor de ouvido.(Cf.Is.58,7-8) Para entender esta reza havemos de conhecer a história que Ana Pereira conta: Jesus quando andou no mundo, andava como um velho que pedia esmola. Certo dia chegou na casa de uma dona que preparava uma galinha para o almoço. Aí, o velhinho, que era Jesus, pediu um prato de comida. A mulher viu que ele estava com fome, mas disse: Não posso dar porque meu marido está perto de chegar e ele não quer que ajudo ninguém. É muito ciumento. O velhinho respondeu: Não se preocupe. Pode dar, não faz mal. Na mesma hora que o velhinho recebeu o prato, o marido chegou na casa. Jesus se escondeu com o prato atrás de umas tábuas. Mas o marido perguntou logo pelo homem que havia entrado e arrumou uma briga feia com a esposa. Jesus aproveitou para sair. O marido ainda disse para a mulher: Você roubou um pedaço de galinha. No momento que ele falou assim, sentiu uma forte dor de ouvido que não queria parar. Aí, a dona mandou um menino atrás do velhinho para perguntar se ele não sabia alguma reza para benzer dor de ouvido. Então Jesus ensinou as palavras: “Detrás das tabinhas, onde estava o Senhor escondido, pelo furto da galinha sara essa dor de ouvido”. A mulher rezou três vezes no marido e ele sarou.(São Paulo.SP.,1981) Faz uma cruz no ouvido e reza AM. Tudo três vezes. A história normalmente não é contada. Remédio: banha de traíra; sumo de saião. Esta oração tem grande semelhança com a oração contra o engasgo.

MAL DE SIMIOTO Doença que faz a pele grudar nos ossos. O doente fica com a feição de macaco(=símio). A rezadeira Jacomina(1994) de Ribeirão Preto(SP) cura com óleo de oliva. Deita o doente de bruço com os braços deitados sobre as costas. Esfrega o óleo simultaneamente do pé da perna esquerda até à cintura e do ombro do braço direito até à mão, depois na perna direita e no braço esquerdo. É tratamento “encruzado”. Com muita paciência trata sobretudo as juntas. Depois vira o corpo de barriga para cima e depois sopra 3 vezes de cima até em baixo, reza 3 PN e 3 AM e oferece ao Santo Sepulcro de Jerusalém.

CAUSAS APONTADAS PELO POVO:

AGOURO (AGOIRO) Diversas coisas são proibidas por agourar a mãe.

SOPRO Soprar no pó é sinônimo de feitiço. Dizem: As coisas da macumba vem pelo ar.

URUCUBACA, ENCANTAMENTO, COISA FEITA e FEITIÇO e FÓRMULAS MÁGICAS Obra de fada, bruxo ou feiticeiro. Por sua ação mágica e seu poder sobrenatural, um monstro pode ser um príncipe encantado.

MANDAR O mal que nos aflige pode ser um mal mandado.

PRAGA Rogar praga pode causar uma doença ou o atraso.

MAU-OLHADO ou OLHO RUIM Energia negativa que faz o outro adoecer de quebranto principalmente crianças.

FUMAÇA Trabalho feito pelo mestre do catimbó. Fumaça às direitas indica todo o trabalho para o bem, cura de doença, conselho, desmanche de feitiço, oração de proteção. Fumaça às esquerdas é o trabalho para o mal, desmanchar casamento, causar doença, atrapalhar negócios.

ESPÍRITO MAU e ENCOSTO Causa: um espírito mau e os vermes de doentes, possessos de demônio ou encosto. Precisa de exorcismo.

VONTADE DE DEUS ou Castigo. Pode ser obra de algum santo malino, quando o povo não cumpre a promessa feita.

OMOLU ou OMULU Na Bahia, o “orixá da peste e da bexiga” tem o título de médico dos pobres, mas pode assustar os humanos. Na umbanda, Omolu é divindade da lepra e da peste.

OSSÁIN ou OSSÃE O orixá, senhor das folhas medicinais e rituais, também as venenosas.

LUA NOVA A lua pode endoidar e influencia a menstruação das mulheres.

SOL As orações contra dor de cabeça pretendem tirar o sol da cabeça.

AR BRABO, MAU AR e MAL-DE-VENTO-EXCOMUNGADO O mesmo que ar brabo, ar estupor, moléstia do tempo. Cortam o vento colocando uma tesoura aberta, isto é em forma de cruz. Poderia trazer coisa ruim(doença, coisa mandada).

CALOR DO FOGO Os que lidam com o calor do fogo correm o risco de pegar uma constipação quando ao mesmo tempo se expõe ao frio da chuva ou do vento. É uma espécie de derrame cerebral ou congestão. Também chamado ar-estupor.

MOSCAS e MOSQUITOS causam bicheira, dengue, malária.

CAUSAS DA CEGUEIRA: catarata, glaucoma, varíola, sarampo, diabete.

VENENO: Cobreiro vem de aranha, lagartixa, sapo e todos os animais que tem peçonha. Picada de cobra.

BACILOS: causam cólera e hanseníase.

MICRÓBIOS: causam a doença de chagas. O termo moderno entrou numa oração da tradição oral contra dor de dente: Santa Apolônia, que por amor de Jesus fostes martirizada, dizei comigo estas palavras, fazendo comigo o sinal da cruz sobre o lugar dolorido. † Por minha ordem afasta-te, mal. † Se for uma gota de sangue, secará. † Se for um verme ou micróbio, morrerá. Assim seja. Rezar um Creio em Deus Pai.8

PARASITAS causa a esquistossomose.

VERMES causam dor de dente.

ARROTO DA CRIANÇA NO PEITO DA MÃE deixa o peito arruinado.

OUTRAS CAUSAS:

OS HUMORES DO CORPO: Segundo as antigas teorias dos humores do corpo, o desequilíbrio dos fluidos causava doença. As doenças podem ter três causas. A primeira depende da vontade humana: alimentação, tipo de trabalho, descanso, relações. A segunda está no clima, mudança de temperatura, ventos, estação do ano. A terceira consiste em fatores hereditários. Em caso de doença, supõe-se que todo homem possui uma força curadora que promove o equilíbrio dos humores.

QUATRO ELEMENTOS: Terra, água, ar e fogo. O antigo livro do “Lunário Perpétuo”9 elabora as ligações entre os quatro elementos, as quatro estações, as qualidades: quente,frio, seco e úmido, e os quatro humores: sangue, fleuma, melancolia e cólera. Para entender a cultura popular precisamos lembrar-nos sempre dos quatro elementos e da influência cósmica. A doença (a dor) é soprada; dor e febre (calor) são mandados para a água: o fundo do mar, para tirar o sol da cabeça põe-se uma garrafa d’água na cabeça, em nome de Deus. Os quatro elementos aparecem nas orações populares contra queimaduras.

RESUMINDO E RETOCANDO AS CAUSAS:

Mesmo não separando vida e religião(profano e sagrado), o povo sabe muito bem a diferença entre remédio e reza.

- Uma esconjuração ou um exorcismo visa afastar um espírito mau, o demônio, um encosto ou alguma outra causa espiritual.

- Outras orações pedem a Deus e aos santos para os remédios funcionar, ou para mostrar misericórdia e abrandar um castigo.

- Apertar, puxar, endireitar servem para pôr um osso rendido, uma espinhela caída ou uma arca no seu devido lugar.

- Fazer sangria, dar purgante, banhar podem buscar o equilíbrio dos humores do corpo.

- Simpatias e amuletos tentam atrair as influências favoráveis do elemento mineral, vegetal, animal e mesmo cósmico.

- Plantas medicinais corrigem o mau funcionamento algum órgão do corpo. Antibióticos eliminam bacilos e micróbios, segundo o povo.

- Em muitas doenças, as causas e os remédios são vários. A bênção juntamente com o remédio visam salvar o doente como um todo.

NOTA: CAUSAS NA MEDICINA INDÍGENA

O médico Marcos A.Pellegrini, narra a tragédia dos yanomami no seu livro “Wadubari”. Segundo o autor, a medicina ocidental combate a causa instrumental das doenças que no caso da malária é o ‘plasmodium’. Pela lógica médica indígena, para combater a malária deveria-se lutar contra a sua causa última, que é a ganância dos garimpeiros pelo ouro.10

R E M É D I O S

O remédio que resolve problemas graves é chamado um “santo remédio”.

Dizem também: Deus querendo, água do pote é remédio.

A: - P L A N T A S M E D I C I N A I S :

São administradas em chás, garrafadas, xaropes, cheiros e defumadores, em banhos e em banhas. - É bom lembrar que não só raizeiros conhecem raízes, sementes e folhas. Todos conhecem e usam as plantas medicinais: quebra-pedra, boldo, carqueja, hortelã. Especialmente, o conjunto das mulheres de uma rua ou bairro cultiva o conhecimento das plantas. Quando alguém adoece, as comadres conversam. Uma sabe o que é bom, outra sabe onde cresce. Vão aqui aqui apenas alguns exemplos do uso das plantas e sem nenhuma garantia da parte do autor deste artigo.

AGONIADA Planta medicinal para tratamento das doenças do útero, dos ovários, da asma. Cura corrimentos.

ANGICO Planta medicinal. Misturado ao olho-de-goiaba e à casca do pajeú, é usado como remédio contra veneno de cobra(BA,médio São Francisco).

ASMA Remédio contra asma: Toma-se três raízes de erva cidreira(socadas) e três casas de “Maria Barreira”(marimbondo). Depois de tudo fervido e coado, tomar o chá.

CAJU Como remédio, o caju é bom para tosse de cachorro, depurar o sangue, contra escorbuto, afta, cólica intestinal, males dos rins. A cinza serve para dentifrício. A casca, boa para tirar cansaço. O óleo da castanha é útil para desinfetar e para verme no intestino, ajuda na cura de eczema e de hanseníase, cicatriza verruga e úlceras. O suco da fruta, entre outras coisas, é bom para tratar diabetes, sífilis, icterícia, dores de mulher.

CAPIM-AÇU É bom para o pulmão e cura coqueluche, que chega a prejudicar as vistas da criança. Usam o sumo do capim-açu com leite de égua. É um remédio quente. Também levar a pessoa para dentro do rio de manhã cedo e mergulhá-la três vezes dentro da água. Existem ainda as simpatias para curar coqueluche: casinha de “Maria Barreira”. O governo promove a vacinação preventiva e obrigatória.

GUINÉ Planta medicinal, mas fedorenta. A raiz é remédio fino, diurético, depurativo do sangue, traz alívio na dor de dente, e é abortivo. Guiné na cachaça de uso externo é bom para reumatismo. Doses elevadas podem levar à morte. Defumatório de folhas de guiné nas sextas-feiras às portas das casas ou dentro delas é usado como preservativo contra mandingas e coisas-feitas. Há figas esculpidas em guiné, e Santo Antônio de Guiné.

A COLHEITA DAS PLANTAS MEDICINAIS Há plantas que, por mistério, apenas aparecem em determinada hora ou dia. Há plantas que ganham mais força quando são colhidas no dia de certo santo, por exemplo na noite de São João ou em Sexta-feira Santa. O curador em busca de plantas medicinais poderá pedir licença: Deus te salve, laranjeira que venho te visitar. Venho te pedir uma folha para nunca mais voltar.11 Segundo os raizeiros, há plantas encantadas que só são encontradas após certas cerimônias. O mesmo existe na Angola. - É costume plantar para o uso medicinal, um pouco de alho, fumo, arruda, na Sexta-feira da Paixão(o dia da salvação).

É impossível separar a planta medicinal da religião. A própria rezadeira benze e ensina as plantas. Há muitas plantas com nomes religiosos: espinheira santa (Neutraliza o ácido, por isso é boa contra úlcera no estômago. O suco cura até bêbados. Encontrada na região de São Paulo ao Rio Grande do Sul.) malva-de-São-Francisco, São-Caetano, Santo Inácio, Vassourinha de Nossa Senhora, raiz-do-Espírito Santo, etc..

B: - O U T R O S R E M É D I O S

BANHA Pomada da medicina popular. Exs: banha de jibóia é boa para reumatismo; banha de capivara para zoeira nos peitos; banha de canela da ema para surdez; banha de galinha é bom para perebas e tumores; banha de jacu é usada na asma e chiadeira do peito; banha de porco desinflama panariz e, derretida na pinga, cura embriaguez. Banha de traíra cura dor de ouvido.

CORDÃO UMBILICAL É guardado e usado para remédio: chá de cordão é usado contra epilepsia.

CREOLINA Remédio caseiro contra a malária e dor de dente. Num gargarejo, cura dor de garganta. Umas gotinhas no café da manhã curam a gripe. Na água do banho, para curar caruara, frieira e feridas e ficar com a pele lisa. Ela pura cura bicheira.

RISCADO DE CINZA Cura empazinado. Barriga doendo, porque cheia de gaz. Remédio: riscado de cinza de fornalha. Beber a água e passar a borra em cruz no umbigo. Observamos a não-separação de remédio e reza.

LEITE MATERNO Usado como colírio.

PEDRA-DO-BUCHO O mesmo que maçã, benzoá, bezoar. Trata-se de uma bola compacta de pelos(tricobenzoar) ou vegetais, formada no estômago dos ruminantes. É usada, entre outros, contra a lepra(no Vale do Jequitinhonha.MG).

PICUMÃ ou PUCUMÃ Fuligem do fumeiro, às vezes usado em remédios e para curar o umbigo de recém-nascido.

RAPÉ Pó de fumo de rolo, torrado e moído. Dor de barriga de menino é curada com três cruzinhas de rapé em cima do umbigo. Há também o rapé de emburana macho.

O povo distingue: remédio fino, remédio fresco e remédio quente:

REMÉDIO FINO Provoca suadouro. Por isso o doente não pode se molhar na água fria de chuva ou banho. Remédios finos: (Alguns exemplos) - Gendiroba (torrada e moída) tomada sem dieta, um baguinho só, é bom para dores de cólica e de estômago; (Com sebo) pomada contra dores de reumatismo. - Guiné (raiz na pinga) bom para dor e reumatismo. Contra mordida de cobra. - Pau-de-ovelha (muqueca quente) bom para reumatismo e dor. - Folha da negra-mina (folha amarrada na cabeça) bom para dor de cabeça e ar-de-estupor. - Alho (chá) contra dor de dente. - Jalapa (doce de jalapa) contra vermes.

REMÉDIO FRESCO ou FRIO O remédio fresco, chá fresco, refresca o corpo por dentro. Cura mau-estar da vista, dos rins, fígado e intestino. Remédios frescos: açafroa, quina, quebra-pedra, salça, jalapa, picão, poejo, peroba rosa, tiuzinho, limão, folha de abacate, água-da-colônia (raiz), cipó-de-São-João (raiz), pimenta malagueta, tomate, limão e caju. Folha de caju (folha seca?) cozida e adoçada é ótima.

REMÉDIO QUENTE O remédio quente põe a doença e o calor para fora do corpo. Usado nas doenças Sarampo, febre, catapora, coqueluche, bixiga, gripe, asma, e outros. Remédios quentes: carro santo, pimenta-do-reino, raiz de fedegoso, cravo, amendoim, alfavaca, unha danta, sabugueiro, gengibre, agrião, hortelã, limão (assado), laranja tanja, levante, anador da farmácia e outros. Alguns destes são remédios finos. O remédio quente incomoda o fígado, os rins e o intestino.

S I M P A T I A S :

Entre remédios, rezas e simpatias, o remédio e a reza são os mais fáceis de definir.

A simpatia, como elemento menos racional, é mais difícil de entender. Não é um remédio nem uma medalha. A própria palavra simpatia já sugere um coisa que não se explica. Vejamos: uma criança não caminha bem. A mãe pega na teia de aranha aquele bolinha amarela que é formada pelos ovos da aranha, e esfrega-a na perna da criança. Que é isso? Alguém poderia dizer: Ali tem cálcio, tem proteínas, fazendo assim da simpatia um remédio. Está errado! Observem: a aranha caminha que é uma beleza. A mãe passa os ovos da aranha na perna da criança imaginando que a agilidade da aranha passe para a criança. É isso aí. Outros banham a perna da criança com chá de pé de veado, pelo mesmo motivo. Criança gaga bebe água da campainha do altar. Esperam que o som desembaraçado da campainha que faz todos levantar e ajoelhar na igreja, passe para a criança. Mas como pode? Não sei. Eu já não disse que as simpatias não se explicam! Os exemplos que dei, ainda parecem ter alguma lógica. Outros não tem nenhuma.

Há simpatia de amor, de boa sorte, para ganhar no jogo. Há simpatias que a pessoa envolvida não pode saber. Outras a própria pessoa faz. Na medicina popular, as simpatias servem para curar verrugas, hemorróidas, asma, epilepsia, soluço, para o cabelo crescer, para não secar o leite materno, na hora do parto e para sair a placenta. Muitas vezes aparecem em conjunto com remédios e rezas. Há simpatias de prevenção: por ex., para fechar o corpo.

A palavra ‘simpatia’ vem do grego, “sentir juntos o mesmo”. Parte fundamental da medicina popular, as simpatias vem de tempos remotos. Um médico suíço do séc.XVI, Paracelsus, julgava necessária a “antiga arte de fazer uma simpatia com a doença”. Esta prática parece ter vindo do antigo Egito. A simpatia revela uma diferença entre a terapia puramente intelectual e outra pelo curador que conhece a doença por experiência própria e que peleja com o sofrimento dos outros. O amuleto é uma espécie de simpatia. Embora a simpatia não se explique, o funcionamento da simpatia supõe alguma relação íntima entre homens, animais, plantas e planetas. A intuição desta profunda união não leva em conta as leis de causa-fim. Por ex.: para secar o leite materno a mulher põe ao pescoço um cordão de talos da mamona. Fazendo uma simpatia, as pessoas buscam na ação a concretização de um desejo. O uso das analogias para encontrar remédios é antiquíssimo. Mas foi Paracelso(1493-1541) que elaborou um sistema lógico a respeito. Seguem mais alguns poucos exemplos tirados da medicina popular:

EMPELICADO ou APLICADO Diz-se da criança que nasce coberta por uma película. Nasceu empelicado quer dizer, nasceu para ser feliz e ter boa sorte. Alguns colocam a película, depois de seca, como simpatia no travesseiro da criança, sem ser revelada.(Araçuaí.MG.1991.)

HEMORRÓIDAS Também chamada caseira. Existem orações e simpatias para tratá-las, como sentar-se no couro do bicho preguiça. Usam banhar com erva-de-bicho. Colocam o pó da pele torrada da moela de galinha(MG).

MALEITA O mesmo que malária. Maleitado, com febre. Além de remédios, encontramos uma simpatia engraçada para afastar ou queimar a maleita. Querendo proteger-se da doença, a pessoa leva na cabeça um feixinho de gravetos até uma encruzilhada. Lá prepara uma trempe como se fosse uma fogueira e diz três vezes: Maleita, fica aí que eu vou buscar fogo pra fazer café para nós. Depois afasta-se sem olhar para trás, que a maleita ficará presa entre os gravetos.12

PREGO O gesto mágico de bater um prego numa árvore para livrar de febre, dor de dente e hérnia, já existia na Europa antiga precristã e perdura até hoje. Conforme uma simpatia tradicional em Betim(MG), para diminuir o umbigo grande da criança, a mãe deve bater um prego novo num cupim. Na medida que o prego some pela ação do cupim, o umbigo vai diminuindo.

PROTEÇÃO Plantas como espada-de-São Jorge e guiné são usadas como simpatia e protegem moradias e locais de comércio de maus olhados e outros fluidos maléficos.

R E Z A :

Em Araçuaí(MG), registrei umas 2500 rezas. Boa parte serve para curar doenças. Muitas para quebranto. Outras tantas para estancar sangue numa ferida, para engasgo, para dor de dente, dor de pontada, para lombrigas, para cobreiro, para íngua e muitas outras. Algumas orações não podem ser reveladas. Algumas são preventivas, como a oração de São Bento para cobra não ofender.

No nosso contexto, o benzimento ou a bênção é um ritual de cura. Há benzimentos para doenças específicas e outras que servem para qualquer doença. Por ex., faça um sinal da cruz e diga: Eu te benzo pelo nome que te puseram na pia, em nome de Deus e da Virgem Maria, e das três pessoas da Santíssima Trindade, eu te benzo. Deus nosso Senhor que te cura, Deus que te acuda nas tuas necessidades. Se teu mal é quebrante, mal invejado, olhos atravessados ou qualquer outra enfermidade, se te deram no comer, no beber, no sorrir, no zombar, na tua formosura, na tua gordura, na tua postura, na tua barriga, nos teus ossos, na tua cabeça, na tua garganta, nas tuas lombrigas, nas tuas pernas. Que Deus Nosso Senhor que há de tirar, vem um anjo do céu, deita no fundo do mar onde não ouça galinha e nem galo a cantar. Faz-se uma cruz em cima o copo e reze o credo três vezes, na segunda vez reze um PN à Santíssima Trindade e na terceira vez uma Salve Rainha a Nossa Senhora. Faça essa oração três dias seguidos. Antes do benzimento colocar um copo com água e depois dar para a pessoa beber.(Casa Branca.SP. 1994)

No ritual da cura, não se separam corpo e alma. Não é possível salvar somente a alma ou apenas o corpo. Por isso, é possível estar com o diabo no corpo. E até: deitar a alma pela boca. Nas doenças amarram um cordãode orações no corpo, oferecem no santuário o peso do corpo em cera. Numa oração para parto e numa outra contra lombrigas, anotam-se numa tirinha de papel as letras iniciais da oração, para serem engolidas. Muitos trazem no corpo as marcas do sofrimento, da seca, da violência, da pobreza, da doença. Para ficar invulnerável contra todos os males e perigos existem os rituais para fechar o corpo.

Algumas fórmulas de rezas são tão antigas que suas origens seguramente se encontram na mitologia germânica ou céltica do início da história da Europa pré-cristã. Temos o exemplo da reza de izipa, encontrada num código austríaco do séc.IX, ainda na época da cristianização da Europa por Carlos Magno: Do tutano deu no osso, do osso deu no nervo, do nervo deu na carne, da carne deu na pele, da pele foi para as ondas dos mar etc, etc. Mas, mesmo assim, as rezadeiras se adaptam aos tempos modernos. O micróbio já entrou na oração contra dor de dente. O gelo na bênção da carne quebrada.

Duas formas de oração ligadas às curas:

- A oferta do ex-voto, objeto de cera, madeira, prata e outros materiais, em forma de cabeça, perna, peito e outras partes do corpo humano: ou então, muletas, pinturas, fotografias, miniaturas, para pedir e agradecer curas, proteção divina em perigos, graças alcançadas ou outra experiência religiosa. Os ex-votos ou ‘milagres’ são deixados em santuários de romaria.

- O exorcismo ou esconjuração. Em nome de Deus e através de rito ou palavra dominar e expulsar um espírito mau e os vermes de doentes, possessos de demônio ou encosto. O exorcismo tem como resultado a cura, a reconciliação e o perdão, enfim, a salvação. Hoje usado frequentemente nas igrejas pentecostais e no movimento carismático católico.

Grandes epidemias históricas deixaram suas marcas na oração pública. Vários benditos de São Sebastião, São Barnabé, e de São José falam em “peste, fome e guerra”. Especialmente os cantos de penitência. Muitas destas coisas tem origem portuguesa e devem ter surgidas nas epidemias, crises de fome e nas guerras de reconquista e cruzada acontecidas em Portugal. Crises de fome em Portugal aconteceram em 1202, 1310, 1333-1334, 1521-1522, 1597, 1655, 1659.

O ar é um dos quatro elementos e está muito presente nas bênçãos. Vejamos a oração contra mal-de-vento-excomungado(ou: ar bravo), em Ponte Nova(MG): Vento maldito vento excomungado Nosso Senhor não te quer aqui. Nossa Senhora há de ti tirar. Nossa Senhora há de ti levar. Ou então: Vento mau excomungado, vento maldito, vento que Nosso Senhor não deixou no mundo, Se é na cabeça, São Anastácio tira. Se é nos olhos, Santa Luzia tira. Se é no nariz, Santa Iria tira. Se é na boca, Nossa Senhora tira. Se é na orelha, São Francisco tira. Se é nos braços, santa Cruz tira. Se é no corpo, Senhor dos Passos tira. PN. AM.13

Uma oração contra queimaduras menciona três do quatro elementos: O fogo não tem frio, a água não tem sede, o ar não tem calor, o pão não tem fome; São Lourenço, curai estas queimaduras pelo poder que Deus vos deu. Fazer o sinal da cruz e oferecer um PN para São Lourenço.14

A oração vem junto com o remédio: folhas machucadas de abóbora colocadas em cima da queimadura. Há quem cura queimadura com cuspo.

Existem alguns rituais de cura que colocam o tratamento encrustrado na oração, isto é, reza parte das palavras antes e outra depois. Por ex., quando se vê que um parto será difícil reza a Salve Rainha até “nos amostra” e quando a criança nasceu continuam “o bendito fruto do vosso ventre Jesus etc”.

A verdade cura. É importante observar de que maneira algumas grandes verdades aparecem em orações para curar, juntamente com a fórmula: Assim como isto verdade é, etc.. Concretamente, numa bênção de mau-olhado: <...> Jesus Cristo mente? Não Jesus Cristo não mente! Assim como Jesus Cristo não mente, este mal não vai adiante. Da mesma forma usam a verdade: Maria é Virgem, na oração contra a moléstia do tempo. E para curar bicheira afirmam: Trabalhar no domingo não vai para frente; Quem come e não reza, não se salva; Limpas ficaram as cinco chagas de Nosso Senhor; e: Quem come e não reza, não se salva. Rezam: Assim como trabalhar no domingo não vai para frente, esta bicheira não vai adiante. Cai de um em um, cai de dois em dois etc.

O assunto é rico e estenso. Aqui apenas lembramos alguns elementos importantes.

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Capítulo: 5.

C O N C L U S Ã O

Na cultura popular a cura implica num ritual: uma oração no sentido amplo, que não contradiz a simpatia, nem o remédio. A reza, a simpatia e o remédio formam o sagrado, o sábio e o competente tripé da medicina popular. No tratamento popular, remédio, simpatia e reza não se separam no tratamento da pessoa doente.

Por fim, fica a pergunta: o que fazer com os valores da Cultura Popular na nossa medicina, na nossa vida, na nossa ciência?

Duas coisas são certas:

· É minha convicção que ainda sabemos muito pouco sobre a vida e a religião dos pobres.

· Quando nos defrontamos com a espinela caída e outras coisas curiosas da medicina popular, temos vontade de rir e de considerá-las inúteis, porque não tem sentido para nós e não combinam com nossas teorias. Aí, eu lhes pergunto: quando finalmente vamos pensar a partir do outro que é diferente. Precisamos tentar conhecer sua história e realidade. Os remédios, as simpatias, as rezas fazem parte do agir coerente dos pobres do Brasil.

Fonte: http://www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/medicina.htm