quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O QUE O VENTO NÃO LEVOU


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as
                                     [únicas
que o vento não conseguiu levar:
 
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...
 
 
 
Mario Quintana
do livro a Cor do Invisível (1989)

O Tempo do Silêncio


    Havia um tempo em que os homens eram diferentes de agora. A sua visão era muito mais aguçada, a sua escuta era afinadíssima e não havia o mais leve cheiro que pudesse lhes  escapar. Aliás, para ser preciso, não havia nada que lhes pudesse fugir: sentiam tudo. Quando as ondas se quebravam contra as rochas distinguiam com clareza o som de cada pequena gota; quando os grilos cantavam distraídos pelas noites de verão, os homens acompanhavam sem esforço o ruído de suas perninhas. Não perdiam de vista os germes, sempre prontos para dar o bote, e se divertiam ao ouvir o açúcar se dissolver no café. E este dom não se limitava as coisas próximas: estava entre suas habilidades contar as árvores no fundo de um vale e escutar o ressoar de sinos de lá do mar. Até que um dia, um deles se deu conta de que desse jeito as coisas não iam acabar bem. Havia muitas distrações, muitas coisas presentes; não era possível acompanhar uma conversa sem escutar em volta os ruídos de todas as outras conversas em volta. Enfim, era um grande pandemônio, e naquelas condições era impossível trabalhar.
    Diante desta revelação, os outros também se sensibilizaram e decidiram fazer alguma coisa. Todos colocaram um par de óculos escuros, cera no ouvido e taparam o nariz com a ajuda de um pregador de roupas. Quando finalmente tiraram o pregador, a cera e os óculos, eram mais ou menos cegos e surdos como agora, mas em volta não tinha mais a confusão daquela época. Desta vez parecia, enfim, que havia silêncio.
Hermano Bencivenga
Tradução: Paula Carrara

OS POEMAS


Os poemas são como pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão
Eles não tem pouso
nem porto
alimentam-se um instante, em cada par de mãos
e partem
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
 
Mario Quintana
do livro “Esconderijos do Tempo” (1980)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

Ed Bahia / Ai que Saudade D'ocê




Estava aqui pensando em como falar do Ed, fui ler um post antigo do meu blog www.zuzaz.blogspot.com e resolvi dividir com vocês...

6 de Setembro de 2009

Conheci essa música de Vital Farias cantada por Geraldo Azevedo somente há uns 3 anos, quando Ed Bahia me apresentou; era uma música com a qual ele se identificava muito por ter trabalhado como caminhoneiro e ter vivido a situação que a canção descreve, a saudade que quem está na estrada sente da pessoa amada distante.
Ela me levou a mais tarde descobrir o tesouro da música de Vital Farias, Geraldo Azevedo, Elomar e Xangai pelo fantástico álbum "Cantoria", uma música que conjuga uma verdade e simplicidade próprias da alma regional brasileira com uma desenvoltura técnica vocal e instrumental, uma riqueza poética e uma expressividade na interpretação impressionantes, um disco lindo.

Conheci Ed Bahia em 2006, quando o departamento de cultura de São Bernardo fundou o grupo Balaio Brasileiro e me convidou pra ser um dos coordenadores do projeto, a idéia era juntar alunos que se destacaram nas oficinas culturais da cidade e formar com eles um grupo musical. De lá pra cá muito mudou mas o grupo continua, atualmente sou o diretor musical do grupo e participo cantando e tocando (mais informações no blog:http://www.balaiobrasileiro.blogspot.com/, veja também vídeos no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=TxFYL5OqDhs&feature=related).

Ed era um dos percussionistas do grupo (com alfaia na mão) mas sua intenção real era cantar, ele compunha, tocava um pouco de violão e cantava; "Ai que saudade de ocê" foi a canção que ele sugeriu, que acabou entrando no repertório com ele cantando. A 1a estrofe da canção era meio declamada, cantada bem lentamente, sem pulso, bem livre... e o engraçado é que ele sempre se emocionava, as vezes chorava e não conseguia seguir a estrofe até o fim. Depois de algumas vezes virou uma piada interna do grupo: "será que o Ed vai chorar desta vez?" Ele se explicava, dizia que via a esposa na platéia e lembrava das tantas vezes que estava longe dela, na estrada, ouvindo a música que estava prestes a cantar... e aí não tinha como, chorava mesmo!

Ele era uma daquelas pessoas alegres, cheias de vida, de temperamento forte, se orgulhava da "nacionalidade" baiana (daí o nome artístico) e se envolvia emocionalmente em tudo que fazia, sua relação com música era daquelas fortes e diretas, tocava e cantava o suficiente para transmitir o que carregava o peito, sem maiores preocupações.
No dia 24 de Junho de 2009, Ed morreu vítima de um acidente na BR-381 em Pouso Alegre, ele estava a serviço, seu caminhão havia quebrado e ele estava no acostamento quando outro caminhão o atropelou.

Apesar de ele estar afastado do grupo há aproximadamente um ano, o choque foi grande, e agora que estamos num momento de renovação de repertório não poderíamos deixar de pensar em uma homenagem, "Ai que saudade de ocê" vai voltar ao repertório com outro arranjo, hoje fiz um trecho do arranjo vocal que o grupo cantará, gravei só com a minha voz e fiz uma montagem com alguns trechos de comentários do Ed Bahia gravados de shows. Não sei bem de que a arte serve nessas ocasiões, será que ela pode de alguma forma dar sentido a essas fatalidades estúpidas?
De qualquer forma gostaria que ouvissem abaixo. Tenho certeza que o arranjo vai ficar lindo, e o interessante é que já no ensaio me senti como Ed Bahia, incapaz de conter a emoção, cantando com a voz embargada pelo choro que quer sair.