Ontem nos apresentamos no aniversário do Bairro do Botujuru. Depois de um curto ensaio e uma aventura pra chegar lá, fiquei um pouco frustrado com o que encontrei.
A frustração teve a ver com o ambiente criado principalmente pela banda que tocava, acho que chamava "cabaço novo" (não era isso?) e eu me perguntava o que estava fazendo ali, ouvindo aquele som, me questionei o que passava na cabeça da prefeitura em contratar uma banda dessas e colocar a gente junto! E os músicos dessa banda? são meus colegas? certamente que não, não existe um pingo de afinidade, pelo contrário, então se eles são músicos eu sou o que? e vice-versa...
No meio daquele ambiente das bandas e do backstage me senti um estranho, um E.T., apesar de sempre ser um cara compreensivo, nesse caso me senti radical, pra mim o que acontecia ali era ruim, errado e ponto final, não contribuía em nada para aquele público, que nem dançava nem cantava junto, não conseguia ver nada de positivo em nada daquilo, pelo contrário, via como a música podia de fato fazer mal às pessoas e comunidades.
A passividade do público em relação ao forró-trash me animava, e eu tinha uma certa curiosidade sobre como eles reagiriam a nossa proposta, mas ao mesmo tempo tinha uma grande apreensão, um grande receio: eu não tenho dúvidas de que a nossa proposta é mais interessante e artística, de que nossa mensagem é mais bonita e sensibiliza mais as pessoas, mas o som deles "funcionava", pois apesar das vozes desafinadas a estrutura musical se sustentava, aquela bateria eletrônica garantia a energia rítmica, o baixo presente garantia aquele grave que a gente sente no corpo, as mini-saias das dançarinas garantiam a atenção dos homens e etc... era um som alto, cheio, pleno, um lixo mas um lixo que se impunha no espaço. E o nosso som, funcionaria? nossa experiência daria conta de lidar com aquela situação? nossa habilidade musical seria suficiente pra mostra a beleza das canções? os arranjos funcionariam ou só fazem sentido dentro do nosso ensaio e nosso contexto fechado de amigos?... ali era o mundo real ao qual raramente nos expomos e a verdade é que nós ainda não sabemos como ele nos enxerga e reage a nós.
Nessas horas eu costumo ficar quieto num canto, é a minha reação como artista, não gosto de falar muito e tento fazer o que minha sensibilidade me pede, além de cumprir os papéis que me cabem. Me pergunto como cada um reage a esse momento pré-show, principalmente nessas circunstâncias, é possível ficar indiferente?
Enfim subimos no palco e aí eu já fiquei bem mais tranqüilo, a verdade é que outra coisa que me incomodava na espera era a coceira de subir lá e me lembro de sentir que era no palco que eu gostava de estar, lá era o meu lugar, especialmente dentro daquele cenário que me incomodava, lá eu poderia dizer algumas coisa, transformar aquele ambiente de alguma forma. Também me pergunto sobre como cada um se sente nesse aspecto.
Passagem de som confusa, bagunça no palco, essa é a hora de se virar, de ser malabarista, de estar esperto, e acima de tudo de ficar confortável lá em cima, de se sentir em casa, porque estamos exatamente aonde pertencemos como grupo que se propõe a se expressar musicalmente, no palco!
Durante o show lembro de perceber claramente como nossa habilidade, nossa técnica musical, ou seja a facilidade (ou dificuldade) com que fazemos o que nos propomos a fazer faz toda a diferença do mundo na hora H, qualquer insegurança, dificuldade ou incompreensão tende a aparecer em cima do palco. Nossa proposta não é simples, nossos arranjos são relativamente pretensiosos, eles dependem de muita coisa pra funcionar como música, pra fazer sentido. E certamente a parte mais delicada e frágil é a questão vocal, não é a toa que se vê pouco esse tipo de proposta, é porque é difícil de fazer funcionar, exige uma técnica que não é individual mas coletiva, daí a minha insistência em que vocês se encontrem pra estudar, porque timbrar com o parceiro, conhecer a voz dele muito bem, conseguir criar um som lindo com essa combinação de vozes é uma responsabilidade de cada um que canta e uma habilidade que tem que estar bem resolvida pra não falhar quando se precisa dela. Uma coisa é fazer um som bonito logo depois de aquecer a voz, sem ninguém de fora olhando e regulando o som a vontade, outra é se virar com o som que tiver, em cima do palco, pra um público que não te conhece. É isso que precisamos desenvolver...
Mas sinto que passamos o recado, que atraímos a atenção das pessoas (naquela circunstância podia estar o Hermeto tocando e não haveria muita gente pra ver), que mostramos algo diferente do que vinha acontecendo, algo incomum, algo novo; porque o fato é que todo nosso trabalho e esforço aliado ao nosso desejo de transmitir uma mensagem só pode ter o efeito que teve, que é transformar a realidade. A banda que nos precedeu encheu o ambiente com insensibilidade, estupidez e entopercimento, e nós transformamos isso.
Pra mim havia algo no ar quando saímos do palco, um reconhecimento por parte do público do que nós tentamos fazer ali, um reconhecimento de um grupo de pessoas que tentou ir além do óbvio, que buscou estimular a sensibilidade deles de uma forma com que muitos não estão acostumados, e tenho certeza que houve momentos em que apesar das dificuldades nós não só tentamos mas conseguimos tocar as pessoas profundamente, mesmo que a maior parte delas não tenha percebido, e isso pra mim não tem preço.
Fui pra casa com a clara sensação de que é possível transformar a realidade, que existe sim uma mágica, uma poética no ar e na vida que só conseguimos enxergar com olhos de artista ou de criança, e essa sensação é a que me leva em frente apesar de todas as dificuldades que a realidade do mundo moderno me coloca, ainda a carrego comigo hoje e espero dividí-la com vocês em nosso próximo encontro.
Beijos!
Zuza
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
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